A geração canguru
Quase dois terços dos jovens adultos portugueses ainda vivem em casa dos pais, de acordo com um estudo promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, publicado há pouco. Com 64% dos jovens entre os 18 e os 34 anos a viverem em casa dos pais, Portugal é o terceiro país da União Europeia neste indicador, apenas atrás da Grécia (68%) e Itália (66%).
Portugal situa-se 1 ponto percentual acima de Espanha e Hungria, mas bastante acima da média da União Europeia (que está nos 48%). No outro extremo do gráfico surgem os países nórdicos: Dinamarca (19%), Finlândia (20%), Noruega (21%) e Suécia (24%). Em Portugal, a percentagem de jovens adultos que vive em casa dos pais tem vindo a aumentar ao longo da última década e meia: em 2004, era de 55%.
Por outro lado, segundo o Eurostat, o Serviço de Estatística da União Europeia, num dos seus estudos, publicado no ano transacto, os jovens portugueses são dos que mais tarde saem de casa dos pais, quase aos 29 anos, acima da média da União Europeia. Assim, mais de um terço (35,3%) de jovens do sexo masculino entre os 25 e os 34 anos viviam em casa dos pais, comparados com um quinto (21,7%) de jovens do sexo feminino.
Os especialistas apontam diferentes factores para esta permanência na casa dos pais: estudo mais prolongado no tempo, casamento mais tardio, baixo salário, desemprego, factores emocionais, viagens, divórcio dos pais (a separação estimula os filhos a ficarem com um deles como companhia). Todos estes factores contribuem, igualmente, para o adiamento da maternidade e da paternidade, segundo um estudo da Universidade de Campinas, Brasil.
Por outro lado, há evidências científicas, segundo a neuropsicóloga Rochele Fonseca, que comprovam que esses jovens adultos vão encontrar mais dificuldades em levar uma vida independente. Na realidade, se há alguém que lava a roupa, paga as contas e resolve muitos dos seus problemas, esses jovens adultos não se confrontam com situações do dia-a-dia que os fazem crescer. Estas são as chamadas funções executivas, ligadas à autonomia, que necessitam de estímulos do ambiente para se desenvolverem.
Complementando o que Rochele diz, o psicanalista Paulo Gleich alerta para as dificuldades dos filhos em estabelecerem outras relações íntimas que não as familiares, limitando a oportunidade de novas experiências.
Como pais, alimentar essa relação de dependência pode ser uma opção prejudicial para todos os envolvidos. A psicóloga Branca Thomé chega mesmo a dizer que a ajuda que os pais dão a filhos adultos deveria ser temporária, salvo situações excepcionais, deixando claras as co-responsabilidades: "Os custos precisam de ser compartilhados.”
Os pais que sustentam os filhos adultos acreditam estar fazendo um acto de amor quando, na verdade, estão prejudicando o amadurecimento dos jovens, que continuam ligados à família através do cordão umbilical financeiro, quais pequenos cangurus protegidos pela bolsa marsupial dos pais.