Jessica Valenti é uma escritora norte-americana que se tem dedicado à defesa dos direitos das mulheres. Ela é autora de vários livros, foi colunista no jornal “The Guardian” e, actualmente, escreve na plataforma digital “Medium”. Ora nesta ela publicou um artigo sobre a maternidade e o que essa situação pode prejudicar a carreira das mulheres. Diz ela que “não é realmente a maternidade ou as crianças que prejudicam as carreiras das mulheres e as suas ambições pessoais; são os homens que se recusam a fazer a sua “parte justa.” E o que entende ela por “parte justa”? Ela situa-a, fundamentalmente, a dois níveis: em casa e no emprego.
Relativamente à vida doméstica, Jessica diz que “se os pais fizessem o mesmo tipo de trabalho em casa que as mães sempre fizeram, as carreiras destas mulheres poderiam ganhar muito mais relevo.” Ela fala sobre “como a negligência doméstica dos homens dificulta o nosso sucesso.”
Claro que há papéis que só a mulher, como mãe, pode desempenhar dentro do lar. Só ela pode amamentar o filho; só ela, como mãe, consegue distinguir os diferentes tipos de choros que a criança emite e que traduzem diferentes necessidades do bebé. Não é por acaso que durante nove meses ela foi o sujeito fundamental, biologicamente falando, para a transformação de uma simples célula, o ovo, num ser humano. Há uma relação de intimidade biológica entre mãe e filho que se prolonga após o nascimento e que fazem dela uma cuidadora preferencial da criança, nos primeiros tempos, em relação ao pai. Significa isto que o pai deve colocar-se à margem sobre os cuidados a prestar junto do filho? Ora, a sua participação activa em todas as tarefas que acompanham o desenvolvimento da criança, desde o mudar as fraldas, preparar-lhe a papa, levá-la e trazê-la da escola, participar nas reuniões de pais (incumbência que hoje parece estar cada vez mais em desuso por parte dos homens)..., vai-o tornando figura importante perante a criança. Depois, há as tarefas da casa que, rompendo com uma ancestralidade de a mulher ser a “dona de casa”, e de ser ele o único contribuinte para o sustento da família, se permitia fazer apenas determinadas tarefas, reservando as de carácter doméstico para a mulher.
Entretanto o mundo mudou e a mulher, no tipo de civilização ocidental em que vivemos, tem, legalmente, igual acesso à educação, ao emprego, à liderança, tal como o homem. A sociedade enriqueceu-se com a sua participação activa, contribuindo a mulher para ver as situações circunstanciais e estruturais de modos nem sempre idênticos ao do homem. Ora, a diversidade, seja ela a étnica, a do número de espécies animais e vegetais, a de opiniões, desde que fundamentadas…, é sempre enriquecedora.
Voltando à “parte justa” que Jessica referiu, a maternidade, continua ainda a ser penalizadora para as mulheres quanto ao emprego. As mães têm muito menos oportunidades de serem contratadas do que as não-mães e, quando têm filhos, os seus salários caem. A discriminação individual e estrutural contra as mães permanece e isso tem um preço para a capacidade das mulheres alcançarem, em plenitude, a esfera pública.
A não discriminação das mães no emprego tem que começar a partir de casa; mas, igualmente, ela deve estender-se ao nível da sociedade, junto dos empregadores, de modo que, não só na lei mas na prática, uma mulher não saia prejudicada pelo facto de ser mãe.