A passagem da vida activa para a reforma nem sempre é fácil, embora muitos atravessem o tempo da sua actividade profissional a suspirar por ela. Ora, ter um emprego, mais ou menos entusiasmante ou mais ou menos monótono, tem aquele mérito, para além da remuneração, o de nos dar a sensação de utilidade, de que a nossa actividade é necessária à comunidade. Além disso, ele pode, ainda, proporcionar estatuto social e, até, reconhecimento.
Com a passagem à reforma, depois de algumas dezenas de anos a cumprir horários, a receber ordens e ou a tomar decisões cruciais para si e para os outros, a ter incómodos de natureza profissional, parece haver uma libertação de todos aqueles constrangimentos. Para alguns é, pois, a liberdade que julgam merecida. Para outros, pode ser o pressentimento de que algo vão perder, o começarem a sentir-se excluídos. Para a grande maioria, porém, há que reinventar uma nova vida que, em certos casos, até pode ser a oportunidade de fazer o que nunca puderam realizar.
Ora se o trabalho, durante a actividade profissional, é um elemento estruturante da nossa vida, ele, igualmente, pode ter colocado debaixo do tapete muitas questões com significado que andámos adiando e que a aposentação nos apresenta de frente. Por outro lado, alguém sempre atarefado com o seu trabalho, de repente, pode sentir-se livre para fazer o que mais gostaria, mas igualmente ficar paralisado, como se encontrasse uma encruzilhada à sua frente, não sabendo qual o rumo a tomar. Acresce, ainda, que no inconsciente colectivo, aposentar-se é sinónimo de ser velho, podendo ainda sentir-se jovem. E velhice significa aproximação da morte!
Gilbert Bécaud cantava a célebre: “ Et maintenant, que vais-je faire de tout ce temps, que sera ma vie… ?” (“e agora, que vou eu fazer de todo este tempo, como será a minha vida…?”). Ora, ao longo da nossa vida há sempre algo que vamos deixando para trás mas também algo de novo que poderemos fazer. Que valores nos são essenciais e como poderíamos vivê-los e transmiti-los? Danièle Laufer, psicanalista, diz que “não envelhecemos porque estamos aposentados. Tornamo-nos velhos no dia em que não temos projectos.” E ter projectos é ter a possibilidade de aprender outras coisas, de explorar novas capacidades, de realizar algo de bom, sem estar à espera de gratificação.
Depois do primeiro ano de aposentação podemos sentir-nos desfalecidos, como um pássaro caído no ninho, ou descobrirmo-nos renascidos, qual fénix, para outras tarefas, ou para as mesmas que executávamos, mas de modo diferente.