Lia-se num artigo do jornal Expresso, da autoria de Christiana Martins, que Portugal é dos países que mais dificulta a autonomia dos filhos e que menos os deixam brincar ao ar livre, ainda que eles corram pequenos riscos. Segundo o artigo, “sem joelhos esfolados ou cabeças partidas em brincadeiras de rua, as crianças vivem cada vez mais de consola na mão, fechadas em casa ou na escola, sempre sob a observação dos adultos, que se esforçam por reduzir ao mínimo qualquer risco”.
Ora, estas situações em que as crianças não são confrontadas perante pequenos reveses, elas começam a perder a multiplicidade de movimentos necessária para poderem reagir perante situações inesperadas ou de risco. Muitos dos mais novos apresentam dificuldade em correr, saltar, desviar-se de obstáculos e até em defender-se com as mãos quando caem. É aquilo a que já se chama de “iliteracia motora”. Um simples escorrega, no dizer da articulista citada, “pode ser uma aventura para pais que têm cada vez mais medo do risco. Mas crianças que crescem sempre com uma mão por baixo não aprendem a defender-se.”
Reforçando esta ideia, encontra-se um depoimento do professor Luís Rodrigues, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, que integra um grupo de investigação para estudar este fenómeno, em que ele se interroga “porque é que os baloiços quase não baloiçam e que, por cada criança que brinca num parque, temos um pai ou uma mãe a segui-la em permanência? São os ‘pais helicópteros’, que estão em todo o lado e dão aos filhos uma falsa sensação de segurança, inibindo-lhes a autonomia.” Por isso, ele afirma que “é muito importante deixar os filhos caírem, assumir um determinado grau de risco. Tal como os animais, as crianças têm um sentido para se defenderem e adaptarem ao risco que correm de acordo com a confiança que sentem.
Vai-se assistindo à substituição, cada vez mais, do contacto com a realidade da vida e com os obstáculos que ela vai colocando, pelo smartphone, daqui resultando fortes limitações no desenvolvimento das crianças. É importante, pois, que se perceba que, quanto mais protegidos são os espaços, menos cautelosas serão elas. E esta falta de cautela poderá ter repercussões negativas na vida futura, nem sempre fácil, que as espera.
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