Saiu há dias a notícia de um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto que acompanha crianças da Área Metropolitana do Porto desde o nascimento. Neste trabalho indica-se que cerca de 75% dos menores com sete anos de idade são vítimas de agressão psicológica e de castigos corporais.
10% destas crianças sofreram agressões graves (como bater com cinto ou objecto duro ou queimar) com frequência. Segundo o mesmo estudo, das crianças de sete anos que sofrem castigos corporais, 58% apresentam valores de inflamação elevados, quase o dobro das que não são vítimas de maus-tratos. Segundo o director do referido Instituto, “as crianças que no dia-a-dia experienciam formas de disciplina parental mais violenta vivem numa situação de tempestade inflamatória que lhes vai causar doença na vida adulta”.
A investigação conclui ainda, entre outros aspectos, que “as crianças cujos pais têm mais escolaridade, de profissões mais qualificadas e rendimentos mais altos reportaram mais agressões psicológicas e castigo corporal. As formas de violência mais graves são mais frequentemente reportadas pelos filhos de pais com posição socioeconómica mais baixa.”
Ora, muitas destas agressões resultam de desobediências dos filhos a ordens dos pais. Nesse sentido, Martine Fournier, política belga e especialista em ciências humanas, num artigo da revista Sciences Humaines de 2015, oferece algumas pistas para que os pais consigam fazer-se obedecer, sem recurso à violência, recorrendo a estratégias de “manipulação positiva”. Eis alguns exemplos:
- Fraccionar as exigências: “arruma o quarto” é uma ordem vaga. É preferível começar por “arruma a roupa espalhada no chão” e, depois dela feita, pedir-lhe outra tarefa.
- Falar mais no “eu” do que no “tu”: “és egoísta”, “és malcriado”, estas mensagens, portadoras de julgamentos críticos, põem em risco a comunicação e predispõem a criança à desobediência. É preferível dizer-se “deixaste-me triste por teres dito ou feito…” pois sendo uma afirmação respeitosa, faz apelo à sua capacidade de mudança.
- Reforçar positivamente: elogiar mais a criança naquilo que ela faz de bem do que confrontá-la constantemente com aquilo que ela faz de mal.
- Utilizar o toque: tocar o braço, o ombro, acariciar o cabelo de forma leve, muda positivamente o comportamento e aumenta as possibilidades de obter uma resposta favorável.
- Dar o exemplo: Nenhuma das dicas anteriores pode funcionar se os pais não se respeitarem e não respeitarem os filhos. E Martine Fournier termina: “Faz o que eu digo e não o que eu faço é mensagem contraproducente!”