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Pais em tempos de crises: Educar para a transcendência

Mário Freire - 04/06/2020 - 10:24

Fala-se muito em educação para os valores, mas nem sempre estes incluem o da transcendência. No sentido estritamente filosófico, a transcendência implica uma natureza absolutamente superior às outras, uma ordem radicalmente diferente. Em Kant, filósofo, é transcendente o que está além de qualquer experiência possível. A transcendência está na origem das reflexões sobre o sentido da existência do mundo e da vida humana. De onde viemos e para onde vamos? Alcançar a transcendência é estar em contacto com o mundo espiritual.
Ora, valorizar esta duas dimensões do ser humano, a material e a espiritual, é contribuir para que ele não fique amputado na sua formação. Esta valorização deveria constituir um elemento essencial na educação global dos filhos, alargando-lhes os horizontes para além daquilo que eles vêem, ouvem e sentem.  
Apesar das muitas imagens e sons com que a criança e o adolescente são bombardeados; por muito conectados que eles estejam às redes sociais ou comuniquem com colegas e amigos em tempo real, muito daquilo que eles vierem a ser como adultos decorre do modo como viveram as suas infâncias e adolescências e, muito especialmente, das experiências por que passaram no ambiente familiar, do tipo de relação que mantiveram com o pai, a mãe ou outras figuras de referência.
Por isso, um Documento da Comissão Episcopal da Educação Cristã, já de 2011, mas que continua a ter plena actualidade, se fala no papel da família no processo educativo dos filhos, proporcionando-lhes espaços onde os valores morais possam ter expressão em acções concretas, tais como o diálogo, a generosidade e a reconciliação, educando-os, igualmente, para esses valores espirituais, para a fé.
É certo que a sociedade mudou e esta mudança teve impactos na família. Mais de metade das crianças nasce, hoje, fora do casamento e as separações conjugais fazem parte do quotidiano da sociedade. Além disso, aquela mudança tem reflexos quer nos relacionamentos entre os membros da família, quer na sua disponibilidade para com os filhos. Os acontecimentos e as dificuldades com que muitas famílias lutam no seu dia-a-dia, associados a uma nova visão do mundo pelo imediato, e que as redes sociais bem corporizam, parecem ditar um afastamento cada vez maior das pessoas dos temas ligados à transcendência.
De que modo inverter em muitos pais aquela indiferença por estes temas os quais, a serem abordados e vividos pelos filhos, dar-lhes-iam uma maior visão do mundo e da vida, concorrendo, ao mesmo tempo, para uma sua maior realização pessoal? 

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