O tema da morte é um assunto tabu, do qual se fala o menos possível. E, no entanto, ele é o acontecimento que atinge todos os seres vivos e ao qual o homem não pode escapar. Ora, a morte impregna intrinsecamente a natureza viva; há milhares de células, nos organismos, a morrer a todo o momento. Por sua vez, outras células jovens aparecem para melhor regular os funcionamentos desses organismos e encontrarem maneiras de fazer face às ameaças de que são alvo.
A morte representa sempre uma perda mas, igualmente, proporciona a renovação. Por isso, falar da morte, principalmente para os mais novos, seria, teoricamente, falar de uma ocorrência natural, inerente à própria vida e que proporcionaria a continuidade, a renovação e o melhoramento. Mas esta tarefa não é fácil, sobretudo a alguém que perdeu um ente próximo como o pai, a mãe, um amigo íntimo.
Socorrendo-me de uma entrevista dada pela psicóloga Susana Moutinho, responsável pelas consultas de um Serviço de Cuidados Paliativos, ela diz que, não sendo fácil essa conversa, tal não deve ser motivo para excluir a criança e o adolescente do desgosto, do choro e das explicações. Porque eles também precisam de fazer o luto. Tal como os adultos.
A morte está associada a uma perda. Uma separação conjugal, uma zanga entre amigos, o despedimento de um emprego, constituem perdas profundas em que algo ou alguém nos deixou, por vezes, para sempre. Confrontamo-nos, ao longo da vida, com perdas sucessivas mas estas, por sua vez, podem implicar crescimento.
Confrontar uma criança e um adolescente com a morte é confrontá-los com a realidade da vida. O que se exige, segundo a psicóloga Susana, é, com verdade, “num contexto seguro e de partilha de afectos”, falar das razões pelas quais a morte aconteceu (doença, acidente, envelhecimento...), dando espaço à criança ou adolescente para colocar as suas questões. Depois, diz ela: “evitar falar do assunto pode levar à perda de confiança no adulto e à sensação de exclusão da família. Os adultos devem compreender que as crianças conseguem lidar com situações muito negativas como a doença e a morte.”
Mas, perguntando à psicóloga Susana se os pais deveriam chorar de desgosto à frente dos filhos, ela não hesita em responder afirmativamente e acrescenta que isso “é uma forma de os ajudar a normalizar os seus sentimentos e a criar sobre a morte um sentimento de universalidade (…) podendo tornar a família ainda mais coesa…”.
Enfim, ensinar a lidar com a morte é, de certo modo, ensinar a dar valor ao tempo da nossa vida.