Uma parte significativa da nossa comunidade, mesmo a trabalhar, encontra-se encerrada em casa, a contribuir para o abrandamento da propagação de um vírus.
Nós, que andamos constantemente assoberbados por múltiplas tarefas, viajando por esse mundo fora, em recreio ou trabalho, exercendo as nossas profissões ou tomando as nossas refeições em locais variados, participando em reuniões ou, simplesmente, convivendo, eis que, de repente, somos empurrados para dentro de casa, por acção de um agente invisível que não se sabe bem o que é!
Nós, que delegamos em instituições a guarda ou as aprendizagens dos nossos filhos, crianças, adolescentes e jovens, eis que uma nova realidade fecha, quase num pestanejar de olhos, as creches, as escolas, as universidades mas, igualmente, estabelecimentos comerciais e industriais, reduz drasticamente as deslocações e obriga a uma reconfiguração do funcionamento social e familiar!
Nós, que nos saudamos com apertos de mão, abraços e beijos nos espaços públicos, eis que, a partir de agora, as autoridades sanitárias nos impõem um afastamento uns dos outros para evitar que o tal agente infeccioso que mata, se propague!
Nós, que quase não temos tempo para, diariamente, estar com aqueles que vivem debaixo do nosso tecto, eis que, num instante, passamos continuadamente a conviver nos mesmos espaços, por tempo indeterminado!
Em que medida esta mudança radical no quotidiano de cada família proporciona uma oportunidade de novas aprendizagens? Que desafios se colocam a cada membro do agregado familiar, de modo que a proximidade prolongada no tempo, num espaço delimitado, não perturbe o seu funcionamento, pondo à prova a paciência e a tolerância, desafiando a criatividade?
Já existem tecnologias digitais que as crianças, adolescentes e jovens dominam. Igualmente, os professores estão (ou deveriam estar) suficientemente informados e organizados para que, à distância, as escolas pudessem continuar a desempenhar parte das suas funções, não deixando os seus alunos, dentro de casa, sem trabalho para fazer. E, certamente, que muito professores assim estarão a proceder. Resta saber se as famílias têm condições físicas e funcionais para que os seus filhos possam fazer esses trabalhos e, caso não lhes sendo prescritos, encontrem maneiras de eles aproveitarem este tempo.
É certo que, com esta nova realidade, houve um abaixamento significativo nas emissões poluentes; o teletrabalho mostrou que pode haver uma maior compatibilização entre o emprego e a família; a criatividade foi estimulada, com o auxílio das ferramentas digitais, para encontrar soluções novas para novos problemas; a preocupação pelos mais vulneráveis, especialmente os idosos, os que vivem sós, os sem-abrigo, tem estado mais presente. Será que estas ocorrências favoráveis, resultantes de uma situação de calamidade, são um indício de que uma nova era da humanidade está a nascer? Em que medida todas estas ocorrências podem repercutir-se beneficamente nas famílias?
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