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Pais em tempos de crises: Gostar de si ou ser narcísico?

Mário Freire - 02/08/2018 - 10:06

Na mitologia grega existe uma história em que a um jovem, por todos considerado de extrema beleza, chamado Narciso, filho de um deus e de uma ninfa, lhe foi vaticinado por alguém que adivinhava o futuro, que iria ter uma vida longa. Mas tal só se realizaria se ele não viesse a contemplar o seu rosto. Ora, esse jovem bonito era por todas admirado, tentando seduzi-lo. Até as ninfas se apaixonavam por ele! Narciso, porém, muito orgulhoso, cheio de si próprio, a todas desprezava. Então, a deusa Némesis condenou-o a apaixonar-se pela sua própria imagem, na água. E assim aconteceu. Encantado pela sua figura, Narciso olhava-se na água, admirando a sua beleza. E, assim, a olhar para si próprio, acabou por morrer. Afrodite, deusa do amor, transformou-o, então, numa flor, o narciso.
Voltemos, agora, à realidade! Muitas vezes os pais dizem a um filho que é bom, forte, inteligente... E dizer isto, comedidamente, ajuda uma criança ou adolescente a reforçar a sua auto-estima. Já quando os pais afirmam que os seus filhos são melhores, mais fortes e mais inteligentes do que os outros, arriscam-se a torná-los pessoas narcísicas. Ora, estas julgam-se superiores às outras, dificilmente aceitam uma crítica e podem mostrar-se agressivas quando delas se discorda.
Foi sobre o tema do narcisismo nas crianças que foi levada a cabo uma pesquisa, publicada numa prestigiada revista científica americana, PNAS, em 2015. Os investigadores interrogaram 565 crianças entre os 7 e os 12 anos e os respectivos pais, durante dois anos. Eles verificaram que, quando os pais consideram os filhos mais dotados do que os seus companheiros e amigos, as crianças assumem esta visão e desenvolvem traços de carácter narcísico. Estes resultados vieram em apoio do ponto de vista dos autores do estudo de que o comportamento narcísico é algo que se aprende. 
É razoável, pois, concluir-se, pelo enunciado do estudo, que testemunhar a afeição aos filhos pode torná-los mais fortes; fazer com que eles acreditem que são melhores do que os outros pode, pelo contrário, torná-los mais fracos, mais vulneráveis e trazer-lhes, como adultos, problemas relacionais. 

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