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Pais em tempos de crises: Maternidade, paternidade e parentalidade

Mário Freire - 22/11/2018 - 9:25

A partir do Maio de 68, tudo ou quase tudo, em termos de costumes, começou a questionar-se e as transformações que passaram a ter lugar incidiram fortemente no modelo de família que se tinha trazido até aí.
Assim, a contracepção generalizou-se, o número de casamentos diminuiu, o de divórcios aumentou, alterações legislativas contribuíram, e bem, para estabelecer a igualdade entre os sexos, dando possibilidade quer a uma autoridade parental conjunta, quer a uma residência alternada para a criança, em caso de separação do casal. 
Além disso, para uma parte significativa da população, o casamento já não é a base em que assenta a constituição da família. Casar-se ou não, separar-se ou não, segundo Martine Segalen, socióloga da família e professora da Universidade de Nanterre, Paris, tornou-se uma questão de consciência pessoal, de vontade individual. 
Por outro lado, a socióloga e investigadora Irène Théry diz que nas sociedades em que o casamento está em declínio ou em que a estabilidade entre pessoas que vivem em conjugalidade é deficitária, é a filiação que forma a coluna vertebral da família. E a filiação é a ligação de um ser humano a outro a partir do reconhecimento da sua paternidade e maternidade, ou seja, a ligação do filho com seus pais, sejam eles biológicos ou adoptivos.
Ora, se a contracepção permite a sexualidade sem procriação, a procriação já é possível sem a sexualidade. As várias formas de PMA (procriação medicamente assistida), nesta coluna tratadas, vêm colocar, por outro lado, um grande ponto de interrogação sobre a filiação. Assim, pode chegar-se à pergunta: a quem pertence a criança? Significa isto que se a família se transformou e se a sua centralidade se transferiu do casamento para a filiação, também esta, a filiação, ao contrário do que Irène Théry afirmou, como sendo a sua coluna vertebral, deixou de o ser.
Voltemos à pergunta: a quem pertence a criança? À mãe que a acolheu no seu útero? À mulher que deu o seu ovócito? Ao homem que deu o seu espermatozóide? E nos casais gays, aquela que carregou com a criança durante nove meses foi apagada para a criança? Vemos, assim, que os conceitos de maternidade e paternidade se vão esbatendo a favor do de parentalidade.
Este enfraquecimento dos laços conjugais, este desejo imperioso de ter uma criança, “bebéfilia” como é chamado, não estará a levar a sociedade para um caminho “After Nature” (para além da Natureza), assim designado pela antropóloga Marilyn Strathern, em que a criança é a principal prejudicada? 
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