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Pais em Tempos de Crises: O beijo aos avós e a educação para a violência

Mário Freire - 25/10/2018 - 9:26

Teve lugar na semana passada, na RTP1, um debate sobre o Movimento “Me too”. Este Movimento tenta encorajar as pessoas que foram vítimas de assédio sexual ou de violação a denunciar os assediadores ou agressores. A sua designação resultou após uma criança de 13 anos ter confidenciado, em 2006, à activista social americana Tarana Burke que tinha sido abusada sexualmente e ela ter sido incapaz, na altura, de lhe responder. Mais tarde, a activista referiu que deveria ter-lhe dito, simplesmente, “Me too” (“Eu também”). No entanto, foi Alyssa Milano, actriz americana e igualmente activista social, através do Twitter, em 2017, igualmente vítima de abuso sexual, que incentivou outras mulheres que foram abusadas, a denunciar os respectivos abusadores. 
Voltando ao debate na RTP1, eis que, já no final do Programa, um dos intervenientes, a partir da assistência, um jovem professor universitário referiu, e passo a transcrever: “a educação é quando o avozinho ou a avozinha vão lá a casa e a criança é obrigada a dar um beijinho à avozinha e ao avozinho. Isto é educação. Estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro ou da outra desde criança.” E continuou: “Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa, com obrigação coerciva, é uma pequena pedagogia que depois cresce.” Esta posição assenta na convicção de que as crianças que são forçadas a beijar são mais vulneráveis a sofrer abusos sexuais. Tal posição já não é nova. Ela provém de uma jornalista e escritora colombiana, Ana Hanssen que, recentemente, veio com essa teoria. 
Ora, Mário Cordeiro, pediatra conceituado, afirma “ter algumas dúvidas científicas em relação a essa associação causa-efeito”. Outra psicóloga, Teresa Paula Marques, que se dedica à área infantil, diz não conhecer nenhum estudo que indique que a criança que é obrigada a dar um beijo a alguém fique mais vulnerável a sofrer abusos sexuais.
Ensinar os valores e as normas que se julgam adequados, estabelecendo limites e propondo determinados comportamentos aos filhos, eis uma prerrogativa de que os pais não deveriam abdicar. Cumprimentar uma pessoa é uma norma de convivência básica e, na sociedade actual, entre familiares próximos, o beijo traduz um gesto de respeito, de carinho e de atenção por eles. Por isso, incentivar a criança a cumprimentar os avós com um beijo, ao contrário de querer exercer um controlo sobre o corpo da criança, como dizem os teóricos da educação libertária, é ensiná-las a serem afectuosas e respeitadoras para com aqueles que são os pais dos seus pais. 

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