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Pais em tempos de crises: O ciúme provém do amor?

Mário Freire - 13/09/2018 - 10:05

Mérimée foi um historiador, político e escritor francês do século XIX que escreveu uma novela cujo argumento serviu de inspiração a Bizet para compor a célebre ópera Carmen. A acção tem lugar em Sevilha, séc XIX. Carmen é uma cigana que trabalha numa fábrica de cigarros. A sua beleza seduz os homens e, muito especialmente, um soldado, Don José, que passa a viver completamente obcecado por ela. Por esta paixão, ele deserta, integra um grupo de contrabandistas amigos da cigana. Mas ela, porém, não quer ter uma ligação estável. “O meu coração está livre como o ar, e tenho pretendentes às dúzias”, dizia ela. Quando Don José descobre que Carmen se junta a um jovem toureiro, ele apunhalá-la-á com estas palavras “não, pelo sangue tu não me seguirás, Carmen; sou eu que hei-de seguir-te!” Para além do ciúme constituir um elemento recorrente na literatura, ele continua a ser uma realidade bem presente na nossa humanidade e, não raras vezes, a violência doméstica mais criminosa o tem como causa imediata. O ciúme tem sido estudado por vários psicólogos e psicanalistas, originando teses de mestrado e de doutoramento e, por isso, muitas são as teorias que o tentam justificar e múltiplas são as formas de o abordar. Sendo despropositado ir por esses caminhos e fazendo apelo ao que sentimos, vemos e ouvimos, podemos perguntar, com Gabriel Wahl, psiquiatra francês: este sentimento está ligado ao amor? Se uma perspectiva romântica afirma que existe uma relação positiva entre o ciúme e o amor, os estudos mais consistentes não apoiam essa tese. Diversos são os comportamentos de uma pessoa ciumenta como o da necessidade de tudo controlar, de tudo saber, não deixando espaço para a vida pessoal do outro; o desejar exageradamente conservar alguém junto de si, seja por não conseguir partilhar afectivamente essa pessoa, seja por um sentimento de suspeita da infidelidade da outra pessoa. Estes e outros comportamentos de índole ciumenta são associados, segundo Gabriel Wahl, a traços de personalidade como ansiedade, baixa auto-estima e tendência para a suspeição e eles antecipam, com frequência, o rompimento de uma relação afectiva. Se o ciúme sugere a suspeita da infidelidade, ele próprio pode causar infidelidade, dando a origem à fuga de uma acusação sem fundamento. Mas onde começa a infidelidade? [email protected]

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