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Pais em tempos de crises: O envelhecimento e as pessoas idosas

Mário Freire - 05/11/2020 - 9:28

A Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG) emitiu um documento, nesta altura difícil que se vive, em que se produzem reflexões e recomendações sobre a temática que intitula esta crónica.
O documento começa logo por lamentar, referindo-se à elevada percentagem da população idosa em Portugal, os epítetos com que tem sido mimoseada, desde “peste grisalha” a “inverno demográfico”, esquecendo-se que esta população constitui um conjunto heterogéneo de faixas etárias, com estados de saúde diferenciados. Por outro lado, o documento alude à quase ausência de visibilidade das políticas que valorizam as famílias que têm filhos e o baixo valor que estes representam nestas políticas; além disso, refere, ainda, a protecção que se exige à gravidez e à maternidade, dando-se incentivos às famílias portuguesas para terem filhos. Parece haver hoje uma mentalidade em que se procede como se as crianças constituíssem um “encargo” e um obstáculo ao nosso sucesso, e os mais velhos fossem um “fardo”, um “custo” e um grupo de “inactivos”.
Ora, segundo a Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, “não se conhece apoio a uma escolaridade que ensine sobre o envelhecimento humano, sem estereótipos negativos, que ensine as gerações a serem solidárias e complementares; que garanta uma nova cultura, mais inclusiva e respeitadora da experiência dos mais velhos, um outro ‘olhar’, aprendido desde a escola, no âmbito de matéria a incluir numa aprendizagem que respeite a inclusão e a não discriminação pela idade.”
Falando, apenas, de custos e benefícios, diz-se que o Estado deve garantir os “custos” dos mais velhos, das “pensões”, das “reformas”, dos “doentes crónicos”, das “co-morbilidades”, da “incapacidade”, etc., e que concretize nas suas contas o valor real dos mais velhos. Ora são, muitas vezes, os mais velhos que garantem o funcionamento de muitas famílias, inclusive sob o ponto de vista financeiro; são eles os utilizadores de muitos serviços, não só de saúde, mas também de viagens, das tecnologias digitais, que prestam cuidados na família e a outros idosos, desempenham actividades socialmente importantes como voluntários em instituições de solidariedade, cultura e recreio.  
Há uma frase no documento da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia que, pela sua crueza, não deixa de reflectir uma certa realidade e que diz que “as gerações ditas ‘activas’, estão entre os filhos que nunca mais têm dinheiro e emprego, para serem auto suficientes, e os mais velhos que nunca mais morrem”.
É principalmente ao Estado, através de políticas coerentes para o envelhecimento que englobem vários Ministérios, mas também às famílias, que competem garantir que as pessoas não tenham medo de envelhecer nem se considerem como objectos inúteis que estejam à espera de morrer. 

COMENTÁRIOS

Bernardete Santos
à muito tempo atrás
Um retrato triste mas muito verdadeiro da nossa sociedade. Um paradigma que temos que mudar. Gostava de fazer parte dessa mudança mas preciso, se calhar como muitos mais, de "alguém" que nos oriente e lidere para que as mudanças aconteçam e possamos trilhar um futuro melhor para todos nós! :-(