A Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG) emitiu um documento, nesta altura difícil que se vive, em que se produzem reflexões e recomendações sobre a temática que intitula esta crónica.
O documento começa logo por lamentar, referindo-se à elevada percentagem da população idosa em Portugal, os epítetos com que tem sido mimoseada, desde “peste grisalha” a “inverno demográfico”, esquecendo-se que esta população constitui um conjunto heterogéneo de faixas etárias, com estados de saúde diferenciados. Por outro lado, o documento alude à quase ausência de visibilidade das políticas que valorizam as famílias que têm filhos e o baixo valor que estes representam nestas políticas; além disso, refere, ainda, a protecção que se exige à gravidez e à maternidade, dando-se incentivos às famílias portuguesas para terem filhos. Parece haver hoje uma mentalidade em que se procede como se as crianças constituíssem um “encargo” e um obstáculo ao nosso sucesso, e os mais velhos fossem um “fardo”, um “custo” e um grupo de “inactivos”.
Ora, segundo a Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, “não se conhece apoio a uma escolaridade que ensine sobre o envelhecimento humano, sem estereótipos negativos, que ensine as gerações a serem solidárias e complementares; que garanta uma nova cultura, mais inclusiva e respeitadora da experiência dos mais velhos, um outro ‘olhar’, aprendido desde a escola, no âmbito de matéria a incluir numa aprendizagem que respeite a inclusão e a não discriminação pela idade.”
Falando, apenas, de custos e benefícios, diz-se que o Estado deve garantir os “custos” dos mais velhos, das “pensões”, das “reformas”, dos “doentes crónicos”, das “co-morbilidades”, da “incapacidade”, etc., e que concretize nas suas contas o valor real dos mais velhos. Ora são, muitas vezes, os mais velhos que garantem o funcionamento de muitas famílias, inclusive sob o ponto de vista financeiro; são eles os utilizadores de muitos serviços, não só de saúde, mas também de viagens, das tecnologias digitais, que prestam cuidados na família e a outros idosos, desempenham actividades socialmente importantes como voluntários em instituições de solidariedade, cultura e recreio.
Há uma frase no documento da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia que, pela sua crueza, não deixa de reflectir uma certa realidade e que diz que “as gerações ditas ‘activas’, estão entre os filhos que nunca mais têm dinheiro e emprego, para serem auto suficientes, e os mais velhos que nunca mais morrem”.
É principalmente ao Estado, através de políticas coerentes para o envelhecimento que englobem vários Ministérios, mas também às famílias, que competem garantir que as pessoas não tenham medo de envelhecer nem se considerem como objectos inúteis que estejam à espera de morrer.