Pais em tempos de crises: O inferno todos os dias
Mário Freire - 15/09/2016 - 10:14
A Associação de Apoio à Vítima (APAV), instituição particular de solidariedade social, publicou em Março deste ano o seu relatório anual, referente a 2015. Ora, durante o ano em análise, recorreram àquela Associação 9.612 vítimas, 82,2% das quais do sexo feminino. Excluindo as pessoas (que foram a grande maioria) de que não pôde obter-se quaisquer informações sobre o seu grau de escolaridade, aquelas em que se registou maior número de vítimas foram as que se encontram habilitadas com um curso de ensino superior (7,1%).
Por outro lado, da relação da vítima com o/a autor/a do crime, considerando os 9.612 casos registados, seleccionaria as situações em que a vítima foi o cônjuge – 2.567 casos;
a vítima foi o/a companheiro/a – 1.295 casos; a vítima foi o filho ou a filha – 1.104 casos a vítima foi o pai ou a mãe – 819 casos.
Significa isto que, de entre a violência ocorrida entre pessoas, aquela que teve maior expressão foi a que se passou entre membros do agregado familiar mais próximo. Além disso, ela estende-se a todos os níveis sociais e ocorreu em todas as áreas geográficas.
Num outro estudo da mesma Instituição, publicado já em Agosto deste ano, abrangendo os anos de 2013 a 2015, agora exclusivamente orientado para o sexo masculino, registou-se um total de 1240 pessoas adultas que foram vítimas de violência doméstica, tendo-se verificado um aumento percentual de 14,4% entre 2013 e 2015. Segundo os dados recolhidos, são os homens de idade avançada as principais vítimas. Os agressores/as continuam a situar-se no círculo restrito da família. É provável que o número de homens vitimizados seja maior do que aquele que as estatísticas apresentam. Segundo a APAV “o medo e a vergonha são, para estas vítimas, a principal barreira para fazer um primeiro pedido de ajuda. Estes homens receiam ser desacreditados e humilhados por terceiros (familiares, amigos e até mesmo instituições policiais e judiciárias) se decidirem denunciar a sua vitimação.”
Enfim, o inferno de se ser humilhado, ofendido, agredido todos os dias dentro de portas por aqueles que maior obrigação deveriam ter de cuidar e proteger, faz-nos pensar numa sociedade desregulada que, independentemente da área geográfica, do sexo ou do nível social, parece já não distinguir pai, mãe, avô, avó, neto, neta, marido e esposa. Será mesmo uma tendência social de que a violência doméstica está a alastrar? A resposta a estas situações tem que ser dada pelo Estado mas, também pela Escola, pela Comunicação Social, por instituições de carácter cívico e religioso mas principalmente pela Família. Só uma Família que respeite os que lhe estão próximos poderá ser modelo para os mais novos que nela habitam.
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