A morte numa família é sempre algo que a afecta profundamente. Essa morte pode ser devida quer a acidente, quer a doença grave e irreversível ou, simplesmente, consequência do envelhecimento, e nestes últimos casos ser um acontecimento já esperado.
Ora, existe um pacto silencioso, pelo menos na sociedade ocidental, para ignorar a morte, como se morrer fosse um castigo e não o destino a que não podemos fugir. E esse destino iguala a humanidade.
Citando a jornalista brasileira Leilane Menezes, que se tem dedicado a temas que saem do quotidiano, ela diz que “a morte é o maior tabu da actualidade; reconhecer-se como alguém que vive, sabendo que vai morrer, é preparar-se para a morte, para uma boa morte.” E em que consiste essa preparação? Segundo a chefe da unidade de cuidados paliativos do Hospital de Apoio de Brasília, Érika Oliveira, “uma boa morte é, efectivamente, o culminar de uma boa vida.” Claro que cada um terá uma interpretação do que é uma “boa vida” mas ela residirá, fundamentalmente, nos valores que, ao longo dela, se perseguiram.
Quanto ao que se considera “boa morte”, um grupo de investigadores da Universidade da Califórnia, EUA, reuniu vários estudos, focando pacientes, familiares (antes ou durante o luto) e prestadores de cuidados de saúde. Os resultados foram publicados em 2016. Relativamente aos pacientes, estes citaram a espiritualidade/religiosidade mais vezes como algo importante do que os membros da família. Daí no estudo se dizer que, sob o ponto de vista clínico, entre os pacientes, familiares e prestadores de cuidados de saúde, haver diferenças no que se considera mais importante no final da vida.
Na mesma linha vem Érika Oliveira, atrás referida, ao dizer que “muitas vezes, quando os doentes chegam aqui, não há mais tratamento para a doença. Mas dizemos que para o doente, sim. Esse tratamento inclui a parte técnica, o controle da dor, por exemplo, mas também o acolhimento espiritual, psicológico e familiar.”
Parece que vivemos como se não viéssemos a morrer. Ora, aceitar a nossa finitude é, de certo modo, preparar a paz e a tranquilidade que gostaríamos de ter nesses derradeiros momentos, quer estejamos convictos de que depois da morte tudo acaba, quer acreditemos que, a partir do último suspiro, o outro lado da vida se inicia.
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