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Pais em tempos de crises: Porque é que estás sempre a olhar para ele?

Mário Silva Freire - 03/03/2022 - 9:34

Em artigo no jornal Expresso do passado mês de Novembro, José Gameiro, psiquiatra reputado, escreveu sobre o ciúme. 
“O ciúme não é fácil para quem o sente, para quem é o alvo e para quem tenta diminuir o sofrimento que causa”, dizia o médico, considerando a sua longa experiência junto de pessoas que sofrem desta doença, o ciúme delirante.
Claro que há aquele ciúme benigno, provocado por um qualquer encontro de uma das partes, por vezes, inesperado, que gerou grande desconforto da outra parte. Ele pode vir acompanhado pela raiva mas se há desejo de continuar a relação, acaba por resolver-se com o tempo. “Nas relações de amor há, na nossa cultura, uma “dose” de ciúme que é aceite e mesmo desejável... Quem não o sente pode ser acusado de gostar pouco ou de estar pouco envolvido na relação”, diz o psiquiatra.
Diferente deste ciúme é aquele que, não tendo nenhuma relação com a realidade, “a maior parte das percepções vividas são sinais de que existe uma relação clandestina que não só é do conhecimento do parceiro/parceira como toda a gente sabe da sua existência. Na rua, no café, no restaurante, nas escadas do prédio, no supermercado, os olhares dos outros são interpretados como evidências de uma traição”, diz José Gameiro. É certo, refere o psiquiatra, que o apoio psicológico associado a medicação pode ajudar mas, mesmo assim, tem que haver por parte do doente uma adesão à terapêutica, o que nem sempre é fácil. 
O psiquiatra fala ainda do “ciúme amoroso” que tenta condicionar a vida do outro. Um gesto simpático que se teve para com um terceiro, uma frase mais calorosa que se proferiu em relação a um/a amigo/a, uma certa maneira de vestir que se julga demasiada atractiva, enfim, um sem número de comportamentos integrados na normalidade das relações interpessoais, podem ser tomados pelo outro como indiciadores de segundas intenções. E, assim, sem justificação, parece querermos, muitas vezes, encontrar razões para ferir uma vida de casal que poderia ser feliz  quando, sem as procurarmos, vêm ao nosso encontro contrariedades de outra natureza, a que dificilmente poderemos fugir!
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