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Pais em tempos de crises: Quem muda a lâmpada?

Mário Freire - 21/03/2019 - 9:16

João Duque é professor catedrático do Instituto Superior de Economia e Gestão de Lisboa, participando, igualmente, em jornais e na televisão com temas ligados à Economia. Ora, num artigo do Expresso, nas vésperas do Natal passado, a propósito de o Estado não ser a única entidade a responsabilizar-se pelo crescimento da economia, ele contava a seguinte história:  
“O pai tinha-lhe pedido para mudar a lâmpada do candeeiro da sala, mas no dia seguinte continuavam às escuras. ‘O pai ainda não me deu o dinheiro!’, justificava o filho. Apesar de deixada uma nota de €10, no dia seguinte estava tudo igual. A resposta do relapso foi: ‘Então e o escadote?’ O pai ofereceu-lhe então as costas para trepar, mas sentado às suas cavalitas e alcançada a lâmpada não sentia qualquer acção. ‘E agora rapaz?’ ‘Como é que o pai quer que eu mude a lâmpada se ainda não andou à roda?’ ”
A história poderia suscitar, sob o ponto de vista educacional, várias perguntas: porque é que o filho, tendo já comprado a lâmpada, não a tinha ainda colocado? Porque não tomou o filho a iniciativa de buscar o escadote ou ter procurado uma mesa, uma cadeira, um banco…, qualquer coisa que o ajudasse a alcançar o candeeiro e a colocar a lâmpada, sem estar à espera que lhe lembrassem da tarefa de que tinha sido incumbido? Porque é que o pai lhe ofereceu as costas para o filho nelas trepar, quando poderia tê-lo mandado buscar o escadote? Porque é que o filho ‘obrigou’ o pai a voltar-se, carregando com ele, quando este, inclinando-se para um ou outro lado, facilmente poderia ter colocado a lâmpada no lugar?
Ora, estes comportamentos, quer do pai quer do filho, podem indiciar atitudes menos adequadas, sob o ponto de vista educacional, da parte dos pais. E estas dizem respeito a uma não responsabilização dos filhos pela resolução dos pequenos problemas do quotidiano que lhes aguce a iniciativa, que os ajude a procurar soluções, que os confronte com as dificuldades a que podem dar resposta e que têm que resolver.
E, perante uma não execução do que foi pedido, examinar se as justificações dadas correspondem a simples desculpas ou se, na verdade, houve razões aceitáveis para a sua não execução. As desculpas são pretextos, quase sempre injustificáveis, para se fugir a uma obrigação; já as razões correspondem a situações reais que impediram a realização da tarefa solicitada. 
Ensinar a responsabilização dos filhos pelas palavras que proferiram e pelos actos que praticaram ou deixaram de praticar é prepará-los para a vida e para o exercício da cidadania.
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