É frequente a reconstrução da vida afectiva de alguém com filhos, após uma separação. Um problema, porém, se coloca com muita frequência: constituem os filhos um obstáculo a uma nova relação?
Ora, segundo Nicolas Neveux, psiquiatra, a dificuldade está em compatibilizar as diferentes necessidades das pessoas em jogo. Por um lado, algumas das nossas necessidades passam pelos filhos. Eles constituem um elemento de realização pessoal, mas também uma sua necessidade de identificação, de pertença que o pai ou a mãe lhe podem proporcionar. Por outro lado, o vínculo afectivo a uma outra pessoa faz emergir outras necessidades, como sejam as de realização e segurança emocionais. Serão estes dois tipos de necessidades incompatíveis entre si?
Ora, Nicolas Neveux diz que é preciso que fique claro que estes dois tipos de necessidades não podem entrar em competição e que ambos são importantes e legítimos.
Há que estar consciente entre as pessoas envolvidas que se existe um vínculo afectivo entre um homem e uma mulher, ele não deve interferir com as relações de cada um dos pais com os respectivos filhos. Claro que, pelo facto de pai e mãe se terem separado, eles continuarão a ser os progenitores dos seus filhos. E isso implicará que entre eles, apesar de separados, seja possível haver uma relação em que se fale civilizadamente sobre questões práticas da educação dos filhos. Caso contrário, só os filhos ficarão a perder.
Citando Nicolas Neveux, “o mais importante é reafirmar ao novo cônjuge que não há nada de emocional na relação com o antigo cônjuge e que os fantasmas das histórias do passado não devem interferir na história presente; caso contrário, o futuro será hipotecado.”
Outro aspecto referido por Neveux é o de estabelecimento de prioridades. Quando se entra numa nova relação há, muitas vezes, o medo de não se ser ou um bom pai ou uma boa mãe e haver, então, a tendência para a satisfação de todos os caprichos dos filhos. E eles sabem aproveitar-se dessa fragilidade dos pais para obterem aquilo que desejam! Os pais separados deveriam, pois, acautelar-se dessa armadilha em que, frequentemente, caem.
Refere, ainda, o psiquiatra, considerando a relação com os filhos, na nova relação que “não deve abandonar-se os filhos em benefício do novo cônjuge. Mas, em última análise, não existe uma lei absoluta, e só o bom senso e a análise de cada caso ditará o que deverá ser feito.”
Enfim, uma separação traz sempre dificuldades e as relações dos filhos com o novo cônjuge do pai ou mãe pode ser uma delas. A informação sobre essas possíveis dificuldades pode ser uma maneira de minorar os problemas.