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Pais em tempos de crises: Ser mãe nos dias de hoje

Mario Freire - 31/10/2019 - 9:55

Quando as mulheres que trabalham se confrontam com a dureza de uma maternidade feita diariamente, a imagem de Épinal da mãe heroína pode ser afectada. Esta imagem tem a ver com gravuras, representando temas populares, ligadas à cidade francesa de Épinal, durante o século XIX, em que apenas se mostravam os acontecimentos agradáveis, escondendo os que fazem sofrer. Alguns artigos de revistas de sociedade, assim como certos livros de auto-ajuda seguem a mesma lógica: fazer uma representação embelezada do papel da mulher no “equilíbrio família-trabalho”.
Ora, a realidade é bem diferente. Testemunhos e investigações dizem da exaustão e sentimento de culpa que muitas mulheres sofrem perante o peso das obrigações que recaem sobre elas quando tentam conciliar as tarefas da casa com as do trabalho e com as de mãe. 
Catherine Halpern, jornalista que se dedica a temas de psicologia e filosofia, fala da “tirania da boa mãe”. Numa citação que ela faz de uma destas muitas mães, diz-se: “Eu vejo apenas pequenos torturadores que colocam em risco a minha sobrevivência. Isso faz de mim uma ‘mãe má’. A raiva interior que estou tentando controlar está a crescer e eu expludo com frequência. E grito bem alto! Mais e mais forte!…” A jornalista não hesita em falar num “burnout” maternal. 
Muito embora o pai possa e deva participar nas tarefas domésticas, é quase sempre na mulher que recai a organização da casa. Ela é, ainda, a que mais frequentemente está presente nas reuniões que a escola promove, relativamente aos filhos, e que mais próximo deles se encontra nos aspectos educativos. Outro factor a considerar é o de que a progressão da carreira nos homens não depende deles terem ou não filhos. Para as mulheres, contudo, a maternidade, o número e a idade dos filhos, por vezes, provocará roturas nas suas careiras. 
Muito se tem avançado nos últimos anos, sob o ponto de vista legislativo, no sentido de uma pessoa pelo facto de ser mulher e mãe, ser prejudicada no campo profissional e estar em desvantagem em relação ao homem. Foi até publicada a Resolução do Conselho de Ministros de Portugal “Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018-2030”. A par deste tipo de legislação, há, no entanto, que mudar mentalidades. Para isso, o Estado, através dos diferentes poderes que o constituem, apoiando, incentivando, reprimindo, discriminando positivamente a mulher-mãe…, muito pode fazer nesse sentido. Depois há a escola, a empresa, o trabalho, onde aquela legislação deve ser aplicada. Finalmente, vem a família onde a criança e o adolescente, vendo nos pais a partilha das responsabilidades inerentes ao funcionamento daquela, irão começar a forjar a tal mudança de mentalidades que contribuirá para haver uma sociedade mais equitativa. 
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