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Para além da soma

Luís Beato Nunes - 20/12/2018 - 10:22

No artigo publicado no início deste mês por Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia em 2001, na plataforma Project Syndicate, são enfatizadas as falhas métricas na forma como os países calculam o bem-estar dos seus cidadãos.No artigo, o autor questiona a simples métrica de cálculo da riqueza produzida anualmente em cada país, o Produto Interno Bruto (PIB), referindo que esta métrica coloca ênfase na capacidade produtiva de um país, mas não necessariamente na qualidade de vida e bem-estar da população.

Stiglitz destaca as ideias discutidas no livro de que foi autor há cerca de oito anos, Mismeasuring Our Lives: Why GDP Doesn't Add Up, juntamente com Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi.

Apenas o título já é suficiente para perceber que, segundo os seus autores, se nos concentrarmos em medir apenas o material e tangível, como a produção de bens ou as horas de serviços prestados, investimentos na saúde, na educação e no ambiente serão negligenciados.

Este livro teve o mérito de chamar a atenção para a necessidade de monitorizar métricas que reflectem mais adequadamente o bem-estar social, como o acesso à saúde, à educação e a qualidade do ambiente nas cidades.

O impacto da obra Mismeasuring Our Lives: Why GDP Doesn't Add Up tem sido notável um pouco por todo o mundo, influenciando a OCDE a criar o seu Índice para uma Vida Melhor (Better Life Index), destacando dimensões financeiras, como o salário, mas também aspectos como a segurança laboral, o meio ambiente, a saúde e a participação cívica.

Mais recentemente, em 2017, foi criada a Aliança para a Economia do Bem-Estar (Wellbeing Economy Alliance), patrocinada por países como a Escócia, Costa Rica e Nova Zelândia, e cujo objectivo é colocar esta interpretação mais abrangente de bem-estar das populações no centro de todas as políticas públicas.

O argumento essencial destas alternativas métricas é o de que o PIB, ou riqueza material de um país, significa pouco quando a sua população sofre do mais variado tipo de carências, seja uma alimentação desequilibrada, sejam condições de habitação precárias, acesso diferenciado à saúde, limitação à educação, ou a coexistência com um meio ambiente degradado.

Mas, mais importante, pode dizer-se que a simples mensuração ou soma da riqueza material de um país, não nos dá nenhuma informação sobre a proximidade emocional ou solidariedade entre a sua população, talvez as maiores riquezas de um país.

Precisamente numa época do ano em que esta solidariedade é mais enfatizada, ainda são muitos os casos de famílias que negligenciam os seus membros mais debilitados, acentuando a solidão e o distanciamento já habituais durante o resto do ano.

O bem-estar de uma sociedade é igualmente um reflexo da capacidade desta em não negligenciar os que, pelas mais diversas razões, foram sendo afastados dos núcleos familiares, ou optaram mesmo por se afastar desse ambiente familiar, perdendo progressivamente o contacto com a sua comunidade mais próxima.

E este afastamento não é algo que seja compensável materialmente, ou que um dia possamos passar um cheque para que o distanciamento acumulado seja saldado, como se este se tratasse de uma dívida numa loja qualquer.

Perdoar ou tentar compreender as divisões por caprichos ou discussões passadas que persistem na memória colectiva e familiar é um esforço que todos nós podemos fazer em prol do nosso bem-estar e de todos aqueles que nos rodeiam.

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