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Penamacor: Assim nasce o madeiro que “é do povo”

José Furtado - 24/12/2018 - 12:00

  VÍDEO O maior madeiro do país já arde e é um esforço de várias gerações, que se juntaram logo no arranque das árvores.

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Arranque do madeiro começa a 7 de dezembro e envolve várias gerações de penamacorenses. Foto José Furtado/ Reconquista

Antes de a chama do madeiro se erguer é preciso que tombem as árvores.

Em Penamacor essa tarefa começa na manhã de 7 de dezembro, quando um grupo de jovens começa a chegar ao campo, o primeiro palco deste ritual.

Não estão sozinhos. Com eles chegam máquinas e mãos mais experientes para ajudar. Afinal “o madeiro é do povo, é da malta do ano mas é de quem quer ajudar e de quem aparece”. Quem o diz é Tiago Pinheiro, um dos 12 jovens que compõem a malta de 1998, que este ano teve a responsabilidade da tradição.

“Desde os meus três ou quatro anos comecei a vir com o meu pai para o madeiro e nunca mais parei. E agora chegou o meu ano. Foram 20 anos à espera e agora chegou”. A frase é dita a um dia da chegada do madeiro ao coração da vila.

No terreno próximo da zona industrial o som da natureza é abafado pelas máquinas e as motosserras. Há muito trabalho pela frente e não só para os jovens do ano.

Rui Amaro fez o seu madeiro há 31 anos mas os que se seguiram também foram um pouco seus, manobrando uma das máquinas que arranca as árvores.

No seu ano “não havia máquinas como agora. Era uma máquina pequena da câmara e uma máquina de rasto para ajudar. Tivemos que abrir buracos na terra para o arrancar”.

A tarefa começava na manhã do dia 7 e entrava pela madrugada e manhã do dia seguinte.

Hoje é mais fácil. “A tradição foi-se renovando e cada vez vai ser melhor” mas quer passar o testemunho aos mais novos.

Este ano é especial, já que a filha mais nova faz parte da malta do ano. Catarina Amaro é uma das seis raparigas do grupo e foram elas que trataram da burocracia e da cozinha, que começou por ser a porta de entrada das raparigas no madeiro, um ritual antigamente reservado aos rapazes em idade de ir à tropa.

Madeiro foi ateado na noite de 23 para 24 de dezembro. Foto José Furtado/ Reconquista

Há cerca de 20 anos as raparigas subiram pela primeira vez aos tratores e entraram triunfantes na vila.

Ana, de 26 anos, já fez parte desta história, ao contrário de Adelina do Espírito Santo, de 42. Trazem o pequeno-almoço que irá repor as forças a meio da manhã.

“O Rui arrancou o madeiro do ano do meu filho e eu senti-me no dever de o ajudar. Esta é uma tradição da terra e acho que temos de nos ajudar uns aos outros”, diz Adelina, cujo marido e filhos participam ano após ano no arranque.

Do grupo de 12 jovens, dos quais apenas um reside atualmente na vila, nem todos conseguiram chegar a Penamacor na véspera.

Camille Clisson Campos foi acompanhando a construção do madeiro a mais de 1500 quilómetros de distância, na cidade francesa de Cannes. Quando chegou a sua vez “fui eu que perguntei se era possível vir”. Já tinha estado no madeiro da madrinha e da prima e foi a família que a representou na organização. A mãe, Gina Campos, emigrou para França naquele que seria o ano do seu madeiro.

“Não tinha nada a ver com o que é agora. As raparigas não iam para o madeiro naquela altura. Gostei muito que ela viesse em meu nome”, diz a emigrante que não assistia à chegada do madeiro desde que deixou o país.

O maior madeiro do país renova-se a cada ano e o próximo será de Leonardo Silva, que apareceu no terreno na manhã do dia 7 para assistir ao arranque das árvores.

Tinha aulas mas estar lá era o mesmo que nada. “Já nem pensamos nas aulas. Pensamos em ir à noite ao madeiro e no dia a seguir receber o madeiro na vila. Passamos a vida toda à espera de ser o nosso ano”.

E para o ano chega a vez dele, dos da sua idade e de muitos outros.

 

 

COMENTÁRIOS

Carmo Rodrigues
à muito tempo atrás
Simplesmente lindo🙌🙌