Treinar a inovação
Luís Beato Nunes - 09/02/2017 - 11:29
Muito se fala e escreve sobre negócios inovadores, ou formas inovadoras de responder a problemas empresariais de sempre, mas esquecemo-nos que a procura de soluções disruptivas ou a implementação de novas estratégias empresariais sucede frequentemente e sem um guião predefinido ou receita mágica cozinhada nos EUA, em Silicon Valley ou no Massachusetts.
Raramente se trata de inventar a roda todos os dias, mas de adotar uma atitude orientada para a solução de bloqueios, experimentando novas abordagens, tentando, falhando e aprendendo com os erros, ao invés de entupir o desenvolvimento de ideias genuínas com entraves e obstáculos mesquinhos e nada construtivos.
Para estes bloqueios estéreis, Alberto Pimenta publicou em 1977 a sua obra intemporal cujo título sugestivo deixarei o leitor investigar, em que sarcástica, mas brilhantemente o autor ataca toda uma teia de egos torpes e viciosos que contribuem para encravar projectos recorrendo à sua máscara institucional.
Quando se fala em inovação podemos ser sofisticados e altivos ao ponto de nos distanciarmos perigosamente do público que queremos beneficiar com a nossa inovação, ou pensar criticamente e sem quaisquer preconceitos sobre como responder às necessidades do público-alvo da inovação.
Por exemplo, a SIBS, empresa responsável pela rede de caixas multibanco, permite atualmente que cada um de nós possa pagar dezenas de faturas domésticas num raio de menos de 500 metros em qualquer meio urbano. Podemos comprar bilhetes para transportes públicos, para espetáculos, consultar os movimentos da conta bancária e, em poucos anos, poderemos até efetuar levantamentos em moedas.
O modelo da SIBS é absolutamente disruptivo e único no mundo, mas não em Portugal, pois podíamos mencionar a Via Verde, serviço que tanto nos incomoda nas Auto-Estradas, mas que nos poupa a perda de tempo para pagar as taxas de utilização das respetivas vias rodoviárias.
Podíamos também referir a notável adaptação da indústria do calçado nacional que ano após ano tem conquistado quota de mercado no estrangeiro, através de designs apelativos e a preços muito competitivos, sem depender do baixo custo da mão-de-obra, como acontecia até aos primeiros anos deste novo século.
Depois há a AutoEuropa, em Palmela, cujo modelo de organização laboral é exemplo para o Grupo Volkswagen, sendo uma das unidades mais produtivas do respetivo Grupo, empregando mais de 3.000 trabalhadores qualificados e altamente competentes, permitindo igualmente o brotar de pequenos negócios a montante em todo o distrito de Setúbal.
Mas há, ainda, mais exemplos de inovação empresarial que pela sua simplicidade nos fazem ter esperança numa maior dinâmica económica no futuro, como é o caso do aproveitamento de receitas ancestrais caseiras transformadas em requintadas iguarias para os turistas, ou a reabilitação de aldeias históricas incluídas em percursos devidamente catalogados e que satisfazem a curiosidades daqueles que nos visitam.
Em suma, a inovação não tem que ser apresentada de forma altiva, apenas ao alcance de alguns iluminados devidamente qualificados, mas deve ser um treino diário para perceber os desafios do mercado e desenhar soluções adequadas para uma resposta eficiente do público que será necessariamente o último juiz da qualidade dos serviços ou produtos inventados.
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