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Nada se cria de novo, tudo se transforma

Paula Custódio Reis - 03/03/2022 - 9:35

A propósito de um teste de português de um sobrinho, voltei a ler uma sebenta do meu tempo. Com o olhar novo que as vivências me deram, redescobri nos heterónimos de Fernando Pessoa uma verdade que aprendi a aceitar: a resistência por si só não resolve questão nenhuma. Quando muito, conduz a uma situação de rutura necessária, mas depois é preciso saber o que fazer com os pedaços que sobram.
Álvaro de Campos é um poeta inflamado, que impele à ação e à exaltação de ânimo.
Desafia-nos a sair do nosso estado de conforto, de acomodação. Mas é o mesmo poeta que entra depois num estado lacónico de deixar andar, talvez fruto de alguma desilusão pós euforia.
Ricardo Reis denota o estoicismo como filosofia de vida: a vida é o que é, as exaltações extremas não resolvem nada, há que recorrer sempre a um eterno estado de moderação para encarar o bom e o mau.
Acredito que todo o ser humano verdadeiro é um Álvaro de Campos na juventude e tende para ser um Ricardo Reis na procura da sabedoria.
Vem isto a propósito do sentimento muito português de que um dia nos hão de devolver um Rei, que pouco tempo chegou a reinar e que, muito provavelmente por um arroubo de imaturidade, se lançou a si próprio e a muitos outros numa batalha perdida. É o expoente máximo de um líder revolucionário, mas que em nada contribuiu para a evolução de um povo, porque a sua imaturidade, inabilidade e falta de prudência nos lançou numa situação pior do que a que já vivíamos.
Acredito que D. Sebastião não tinha um plano. Tinha uma vontade não sustentada numa estratégia.
Esse continua a ser um traço característico das nossas vivências: temos muitas vontades a concretizar, mas não planeamos estratégias para as alcançar.
Planeamento implica método, equipa multidisciplinar, calendarização, objetivos parcelares e globais bem definidos e avaliações intercalares e finais.
Fácil? Não, mas eficaz e eficiente, sem dúvida.
O que é que falta? Passar da resistência empedernida à avaliação do que temos e do que queremos e poderemos vir a ter.
Uma planta que irrompe de um muro de pedra, não pensa no peso da pedra, limita-se a cumprir a essência e missão da semente que é dar flor.

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