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Política: O último que feche a porta

Paula Reis - 14/08/2025 - 9:01

Estar na Política significa assumir posições. Ideias. Atitudes.

Abster-se de o fazer, ser omisso, ter mensagens ambíguas agradáveis a uma ampla maioria, ocupar o espaço mediático, ter uma linguagem próxima da ofensa, parece ser, nos dias que correm, a receita de sucesso para ser eleito.

Donald Trump sabe-o. E usou destes artifícios durante toda a sua vida. Apelou ao sucesso do sonho americano encarnado para se fazer eleger. Mais, atraiu enormes fortunas na forma de apoios eleitorais que sustentam campanhas, eleições e formas de vida.

Como contrapartida, alimenta um sistema financeiro/político/administrativo favorável aos seus apoiantes, mas, acima de tudo, a si próprio. Alguém duvida que o tipo de poder que persegue é aquele que o dinheiro lhe traz?

Como toda a moeda tem o seu reverso, parece que o sistema produtivo dos Estados Unidos não estará a responder como era esperado porque a sua política de expulsão e perseguição a emigrantes está a fazer com que faltem trabalhadores. Alguns deles, trabalhadores há muitos anos naquele País, mas sem a sua situação ainda regularizada em termos de cidadania, estão a faltar ao trabalho com medo de uma hipotética expulsão por parte das autoridades.

Por cá, e no que a trabalhadores diz respeito, o Governo veio apresentar (em período de férias) um conjunto de propostas legislativas que causaram um coro de vozes dissonantes. Desde logo por parte dos sindicatos, mas também de comentadores e partidos políticos.

No meio da troca de argumentos, surpreendeu-me (ainda consegue) a tomada de posição de André Ventura, que consegue rodopiar sobre si próprio tantas vezes por dia, como voltas dão os ponteiros do relógio.

Não veio declarar-se contra o aumento da precariedade laboral que significa aumentar o números de contratos a prazo possíveis ou as mexidas na duração do período experimental.

Não veio insurgir-se contra o facto de ser eliminado o impedimento ao outsorcing (ou seja, uma empresa contratar outra para desempenhar determinada tarefa) por 12 meses após despedimentos coletivos ou despedimentos por extinção de posto de trabalho, o que na prática se traduz, muitas vezes, na intenção de redução de custos, contratação de mão de obra por valor mais baixo e contratos de trabalho mais precários.

Veio levantar a mão e dizer «não contem connosco para atacar os direitos das famílias», dizendo-se violentamente contra as alterações previstas à redução de horário por amamentação ou ao período de nojo por luto gestacional.

Não menosprezando o direito a amamentar filhos durante o tempo em que isso seja possível, nega-se a evidência de que é a estabilidade laboral, o direito a um trabalho com um salário digno e direitos reconhecidos que garantem às jovens famílias a segurança de pensar num futuro com filhos.

O truque é fácil: fazemos barulho a apontar para uma faúlha que caiu num caminho de terra, para desviar a atenção do incêndio enorme que lavra na floresta que está em sentido contrário.

Parece-me que o resultado da negociação entre os Partidos de Direita significará um retrocesso enorme nos direitos dos trabalhadores, em nome da flexibilização que alguns partidos dizem essencial ao desenvolvimento económico. Também me parece que não estamos a definir estratégias económicas que trarão um crescimento para lá de anémico ao tecido produtivo, enquanto, em nome da apologia da boa gestão privada, se fragilizam técnica e financeiramente serviços públicos essenciais.

E também me parece que as justificações que serão apresentadas já estão encontradas e irão ser usadas expressões como «baixa produtividade», «crise dos mercados», «dependência energética», «a União Europeia», «a crise».

Só me espanta que, tendo já encontrado o problema, ainda não tenhamos acertado com a solução. Será baixa produtividade por parte de quem decide?

COMENTÁRIOS

JMarques
No ano passado
Uns é para amamentar os filhos, outros é para amamentar a clientela politica.