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Poupar é o melhor investimento

Luis Beato Nunes - 08/11/2018 - 9:39

Na semana passada o Eurostat divulgou a taxa de poupança das famílias em 19 dos 28 estados membros da UE em 2017, fixando-se este valor em 4,7% do rendimento disponível em Portugal, o valor mais baixo desde 1995. 
A par desta notícia, a DECO divulgou que o número de famílias endividadas que solicitou o seu apoio voltou a subir no mês passado, evidenciando uma tendência que teve início em março deste ano.
Segundo a DECO, as famílias portuguesas têm, em média, cinco empréstimos – um da casa, dois ao consumo (aquisição de bens) e dois cartões de crédito. A taxa de esforço média para pagar os encargos dos empréstimos está em 72%, quando em 2016 era de 70,8%, muito longe dos 35% recomendados pelos especialistas da DECO. 
Estes não são os piores valores entre os estados membros da UE, em que sem surpresa as taxas de poupança são mais elevadas nos estados em que as famílias têm, em média, um rendimento disponível mais elevado, como é o caso do Luxemburgo, Holanda e Alemanha. 
Com valores semelhantes ou piores aos verificados em Portugal, encontram-se Chipre, Lituânia e Letónia, todas pequenas economias periféricas cujo rendimento disponível médio é cerca de um terço do verificado no Luxemburgo, uma micro-economia do centro da Europa que tem beneficiado enormemente da sua geografia desde a integração económica europeia. 
Contudo, ser uma pequena economia periférica não é um factor limitador da taxa de poupança per se, bastando olhar para os exemplos da Eslovénia e da Estónia para perceber que é possível obter taxas de poupança internas mais elevadas, diminuindo, assim, a alavancagem junto de credores estrangeiros.    
A taxa de poupança assume particular relevância, porque é a poupança que permite a realização do investimento necessário para aumentar o rendimento disponível futuro. Este investimento pode ser realizado recorrendo à poupança interna, ou à poupança externa, sendo que esta última representa um empréstimo contraído junto de aforradores estrangeiros. 
O conceito de poupança significa um “consumo adiado” e, por mais estranho que pareça, representa uma confiança no futuro, porque quem consegue poupar acredita que os recursos poupados valerão mais no futuro do que valem no presente e, portanto, é melhor adiar a sua decisão de consumo.
Mas este não é apenas um conceito que se reduza apenas à sua dimensão “económica”, dependendo igualmente da cultura colectiva, sobretudo como esta gere o “tempo”, a importância dada ao presente e o futuro. Há culturas em que o carpe diem é mais valorizado do que um futuro que é sempre incerto.
Não deixa de ser irónico, porém, que o nosso futuro dependa igualmente de como o condicionamos pelo presente já sobredimensionado por um consumo excessivo face ao rendimento disponível.
Esta escolha de antecipar consumos futuros em Portugal, seja através do crédito ao consumo, ou de pagamentos a crédito, não é recente e não é justificável apenas com os baixos rendimentos disponíveis das famílias.   
Segundo o Boletim do Banco de Portugal, a descida da taxa de poupança é justificada pelo aumento do consumo, cujo ritmo de crescimento superou o aumento do rendimento disponível, tendo a despesa de consumo final aumentado 0,9%, comparado com o crescimento de 0,7% do rendimento disponível em 2017.
Já em 2016, o Banco de Portugal notava que a evolução da taxa de poupança em Portugal contrastava “com a média da área do euro, onde a taxa de poupança se reduziu apenas ligeiramente desde 1999, permanecendo num nível significativamente superior ao registado em Portugal.” 
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