Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Proximidade: Mãos que alimentam, mãos que vestem (IV)

Mário Afonso - 05/11/2026 - 9:01

Nas ruas da nossa cidade, a resposta às crises sociais mais urgentes faz-se também longe dos palcos públicos, ao ritmo discreto e quase invisível, mas com impacto social relevante, do voluntariado diário de pessoas e instituições que doam o seu bem mais precioso: o seu tempo. Quem cumpre as suas rotinas dificilmente se apercebe da engrenagem humana que se ativa na antiga escola primária do Cansado. É nestas instalações, cedidas pela Câmara Municipal, que a vulnerabilidade social encontra uma resposta imediata, prática e digna através de dois projetos locais: a Associação 4 Corações e a RAS (Reciclagem, Artes e Solidariedade).
A Associação 4 Corações, liderada pelo fundador Hélder Martins e pela psicóloga Ana Muralha, assume a missão de garantir refeições quentes e apoio emocional a quem mais precisa. Num quotidiano marcado pela inflação e pela perda de poder de compra, o seu trabalho é o único sustento de muitos cidadãos, combatendo também a solidão. Com uma equipa de seis pessoas e o apoio de voluntários — incluindo beneficiários que doam o seu tempo — a associação distribui diariamente cerca de 100 refeições e entrega 40 cabazes alimentares mensais. As refeições são confecionadas nas instalações por voluntários. Em média, anualmente, disponibilizam-se 350 mil refeições quentes. Números que nos fazem pensar!
Este esforço apoia-se numa vasta rede de parcerias, que inclui o Banco Alimentar, grandes superfícies (Continente, Recheio, Auchan, Schreiber), associações locais (WADO, Valongo, Granja Park, Angolanos) e a ARCA, para onde seguem os alimentos doados para animais. Contudo, o desafio tem crescido. A não realização este ano, do "Festival Mais Solidário", privou a instituição de uma importante fonte de financiamento e de apoio a outros projetos da região, obrigando a reestruturar recursos numa altura em que  os pedidos de ajuda não param de aumentar. Para dar essa resposta é preciso mais parcerias e criar sustentabilidade no projeto. Esse é o desafio atual da “4 corações”.
Ao lado, a poucos metros, a Associação RAS desenvolve outra frente essencial: o Banco de Roupa Solidário. Presidido por Ana Belo e movido por dez voluntários ativos, o projeto cruza reciclagem, arte e solidariedade. O processo é minucioso: peças de vestuário doadas por particulares e instituições parceiras — como a Cruz Vermelha, Amato Lusitano, Cáritas, Mais Lusofonia e associações de bairro — são triadas, lavadas e reparadas antes de serem entregues gratuitamente. O vestuário sem condições é reciclado, gerando fundos para a compra de detergentes.
O impacto da RAS ultrapassa fronteiras, somando mais de 5 milhões de peças enviadas para a comunidade local, países da PALOP ou zonas afetadas por grandes calamidades, como os fogos de Pedrógão. Além disso, a sua vertente pedagógica brilha no Desfile Moda e Reciclagem, onde resíduos como cápsulas de café ou radiografias se transformam em vestuário criativo, provando que a inclusão e a consciência ambiental caminham juntas. Aqui há o desafio de manter um voluntariado ativo e de tentar trazer jovens para este projeto social e também ambiental.
Estas equipas contam cêntimos, gerem stocks, confecionam alimentos e reparam agasalhos sem exigir mediatismo. Ao fazê-lo, preenchem lacunas profundas do nosso sistema social. Apoiar “a 4 Corações” e a “RAS” é rejeitar a indiferença. Olhar por estes projetos hoje é garantir que amanhã ninguém em Castelo Branco fique esquecido. Uma cidade só é verdadeiramente justa quando deixa de ser cega à dor dos seus.
E, como referiu Mahatma Gandhi: “A melhor maneira de te encontrares é perderes-te ao serviço dos outros”.

 

COMENTÁRIOS