O que significa, afinal, ser albicastrense? A pergunta parece simples, mas talvez seja uma das mais importantes para quem pensa o futuro de Castelo Branco.
Curiosamente, foi a propósito do último Campeonato do Mundo de futebol que ela me voltou à cabeça. Ouvi comentadores falarem da identidade da seleção espanhola, da raça e do sentido de pertença da Argentina e da aparente perda de identidade da seleção portuguesa. Concorde-se ou não com essas análises, elas levantam uma questão interessante: afinal, do que falamos quando falamos de pertença? E de identidade?
Durante muito tempo, a resposta parecia evidente. Pertencia-se a uma terra porque nela se nascia. A família, a religião, as tradições e a comunidade definiam quase automaticamente esse sentimento. Era uma pertença herdada.
Hoje, a realidade é diferente. Podemos nascer num país, estudar noutro, e sentir que é num terceiro lugar que verdadeiramente estamos em casa. A mobilidade, as migrações e a globalização alteraram profundamente a forma como construímos a nossa identidade. A pertença deixou de ser um dado adquirido para passar a ser, muitas vezes, uma escolha.
Isso não significa que a necessidade de pertencer a algo tenha diminuído. Continuamos a precisar de sentir que fazemos parte de algo maior do que nós próprios. A diferença é que essa pertença pode hoje ser múltipla: à cidade onde vivemos, à profissão, à família, à cultura ou até a comunidades criadas no mundo digital.
Durante décadas, nas cidades do interior a pertença era quase automática. As famílias conheciam-se há gerações e existia uma forte memória coletiva. Hoje, muitos jovens partem, chegam novos habitantes e a diversidade aumenta. Isso obriga-nos a repensar o conceito de comunidade.
É precisamente aqui que Castelo Branco se torna um excelente exemplo. A nossa cidade possui uma identidade própria, marcada pela interioridade, pela memória rural, pela proximidade entre as pessoas e por um ritmo de vida diferente do das grandes áreas metropolitanas. Mas recebe também estudantes de diferentes lugares, profissionais deslocados, imigrantes e novos residentes que decidiram aqui pertencer.
Talvez o verdadeiro teste de uma cidade como a nossa não seja preservar-se imutável, mas conseguir que quem chega sinta que também faz parte dela.
É aqui que surge a pergunta: o que é ser albicastrense? Será apenas quem nasceu em Castelo Branco? Ou também quem escolheu aqui viver, trabalhar, participar na vida cultural, conhecer a história da cidade e contribuir para o seu futuro?
Estou cada vez mais convencido de que a pertença depende menos da origem e mais do compromisso. É possível viver uma vida numa cidade sem nunca criar uma verdadeira relação com ela. E é possível chegar há poucos anos e sentir que aquele lugar também é nosso, porque nele participamos, construímos memórias e ajudamos a escrever o futuro.
E a identidade onde fica? Será um conceito estanque ao de pertenças ou serão estes dois conceitos entrecruzáveis?
Fica a reflexão para a próxima crónica. Deixo apenas uma provocação: talvez uma cidade não comece a perder a sua identidade quando recebe pessoas diferentes. Talvez a perca quando deixa de ser capaz de fazer com que elas sintam que pertencem à comunidade. Porque o verdadeiro desafio não é perguntar de onde cada um vem, mas que cidade queremos construir para que todos a possam sentir como sua.