Hoje, abrir uma torneira e dispor imediatamente de água potável é um gesto tão comum que dificilmente pensamos no caminho percorrido até que este serviço chegasse às nossas povoações. Em Almaceda, essa transformação começou a ganhar forma em meados da década de 1940, quando a falta de água constituía um problema sério para a população. Dependia-se de fontes, nascentes e ribeiras, e a procura diária de água fazia parte da vida das famílias. Em 12 de julho de 1945, sob a presidência do padre António Martins do Rosário, a Junta de Freguesia decidiu pedir à Repartição dos Melhoramentos Rurais, em Lisboa, o estudo da exploração e encanamento de águas potáveis. A preocupação não se limitava à sede da freguesia: abrangia também Martim Branco, Valbom, Rochas de Cima, Rochas de Baixo e Ribeira de Eiras. A própria ata justificava a iniciativa pela “falta de água em todos estes povos”, onde as populações recorriam a “fontes de mergulho” e às poucas fontes existentes na ribeira.
A água disponível era tão preciosa que se tornou necessário regulamentar a sua utilização. Apenas duas semanas depois, em 26 de julho de 1945, a Junta decidiu enviar as fichas do inquérito à Intendência Geral dos Abastecimentos, em Castelo Branco, levando o problema ao conhecimento das entidades oficiais. Na mesma reunião, proibiu a lavagem de roupa para cima do Poço do Lagar e impediu que a água das fontes fosse retirada para regar ou lavar casas. A primeira infração era punida com dez escudos de multa, valor que duplicava em caso de reincidência. Estas decisões ajudam-nos hoje a compreender uma realidade que se tornou distante: a água para consumo humano tinha de ser procurada, transportada e protegida, e a mesma fonte podia servir diariamente muitas famílias. Garantir água em quantidade suficiente e em melhores condições de salubridade significava, por isso, melhorar diretamente a higiene, a saúde e a qualidade de vida da população.
O passo decisivo ocorreu em 1946. O Estado comparticipou a obra através da Portaria de 24 de maio de 1946, publicada no Diário do Governo de 6 de junho, permitindo transformar uma necessidade antiga num verdadeiro projeto de abastecimento público. Em 14 de julho de 1946, a Junta reuniu extraordinariamente para tratar da aquisição das nascentes e dos terrenos necessários. As águas escolhidas provinham das nascentes do Armeal, no sítio da Risca da Presa, nas proximidades da aldeia do Espírito Santo. A sua utilização não era, porém, simples: águas e terrenos pertenciam a vários particulares. Entre os proprietários encontravam-se elementos das famílias Gomes e Valente, e as dificuldades em alcançar inicialmente um entendimento levaram mesmo a Junta a admitir a expropriação em nome do interesse público. O episódio mostra como a água começava a deixar de ser encarada apenas como um recurso ligado à propriedade particular para assumir uma dimensão coletiva: era necessário assegurar o seu acesso à comunidade.
O entendimento acabou por prevalecer. Foram inicialmente cedidos cinco sétimos da água para abastecimento público e, em 9 de agosto de 1946, adquiridos os dois sétimos restantes, ficando assegurada a água necessária ao projeto. Os proprietários autorizaram também a passagem da conduta pelos seus terrenos e, em 16 de agosto, a Junta decidiu iniciar a abertura da vala e os trabalhos de exploração. Seguiram-se a captação, a mina de exploração, as condutas, o reservatório, as câmaras de manobra, perda de carga e descarga e os dois chafarizes públicos da Aldeia da Senhora da Graça e da Aldeia do Espírito Santo. Em dezembro de 1946 foram adquiridos os terrenos destinados aos chafarizes por 650$00 cada. O que estava a nascer era mais do que uma obra hidráulica: era um novo serviço coletivo, destinado a aproximar a água das pessoas e a reduzir uma das dificuldades mais elementares da vida quotidiana.
A dimensão do empreendimento percebe-se também pelo tempo, pelo dinheiro e pelos meios técnicos que mobilizou. Em 1947, a execução das principais infraestruturas foi adjudicada ao empreiteiro João Coelho Marques, por 49.500$00, contando a obra com financiamento público, incluindo um subsídio de 20.428$00 do Comissariado do Desemprego. Em 4 de novembro de 1947, o mesmo empreiteiro recebeu a construção da captação, ficando os trabalhos sujeitos à aprovação do engenheiro dos Serviços de Urbanização. A obra prolongou-se por 1948 e, em 27 de janeiro, perante a impossibilidade de a terminar dentro do prazo previsto, a Junta pediu ao Ministro das Obras Públicas a sua prorrogação até outubro. Por detrás dos chafarizes que a população viria a utilizar existiram, portanto, anos de trabalho: procura e aquisição da água, negociação com proprietários, abertura de valas, construção de infraestruturas, financiamento estatal, fiscalização técnica e sucessivas decisões da administração local.
Nos primeiros meses de 1949, quase quatro anos depois da primeira iniciativa, as contas finais do abastecimento foram acertadas. A distância entre 1945 e os nossos dias ajuda a perceber a verdadeira importância daquela obra. Atualmente, o abastecimento público de água é uma infraestrutura essencial ao funcionamento das nossas casas e comunidades, associada à saúde pública, à higiene, à segurança e à própria qualidade de vida. Em Almaceda, porém, houve um tempo ainda relativamente próximo em que a água tinha de ser procurada nas “fontes de mergulho” e em que a sua escassez obrigava a Junta a proibir determinados usos para garantir o consumo da população. A obra realizada entre 1945 e 1949 marcou uma mudança decisiva nesse percurso. Os antigos chafarizes são hoje também testemunhos materiais dessa transformação e recordam-nos que a água que atualmente chega com facilidade às nossas casas resulta de décadas de investimento, trabalho e gestão de um recurso que continua a ser limitado. Preservar a água e garantir um abastecimento público seguro permanece, quase oitenta anos depois, uma responsabilidade coletiva — mudou a forma como a recebemos, mas não mudou o seu valor essencial para a vida.