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Retratos: Páscoa

JC - 09/04/2020 - 11:06

No Burgo, Arlindo, criador de cabritos vai para 60 anos, diz que nunca viveu uma Páscoa assim. - “O vírus da corona não ataca os bichos, mas tem dado cabo do negócio. Não há a quem vender os ditos. Uma tragédia, é o que é!”, referia, ao telefone, para o seu primo Asdrubal, reformado em terras gaulesas.
- “No ano passado vendi os 30 cabritos que aqui tinha. Hoje, ainda não vendi nenhum. Por este andar vão ficar todos para bodes velhos”, lamentava-se para o primo que desta vez não veio à mãe pátria.
Também Jeremias, presidente da Brigada do Reumático, ainda não encomendou o cabrito para a Páscoa. - “Se calhar este ano não vai haver. O Arlindo tem mais de 70 anos e não pode deslocar-se ao matadouro. E eu também já ultrapassei essa idade e não posso ir ter com o Arlindo. Uma calamidade”, justificou, através de videoconferência, junto de Godofredo, secretário geral da BR.
- “Pois, é um problema. Assim, nem o Arlindo vende os cabritos, nem nós degustamos o assado tradicional da Páscoa. Maldito vírus!”, disse Godofredo, que acabara de saber a notícia do cancelamento dos Sabores de Tradição.
- “Então este ano não vamos ter festa?”, perguntou Evaristo, que participava na mesma videoconferência.
- “Não, este ano não há festa para ninguém! E, aqui para nós que ninguém nos ouve, diga-se que é a atitude mais sensata. Infelizmente toda a economia sai prejudicada”, referiu Jeremias.
- “O problema é o resto. Está tudo fechado e qualquer dia não há guito para nada. As empresas não faturam e quando faturam não recebem. O pai Estado não perdoa, adia os pagamentos, e os incentivos não são para todos, mas só para alguns. A vergonha do costume! Coitado do Arlindo e dos muitos Arlindos da Nação Lusitana que por serem sócios e gerentes e por terem alguém que os ajude, ficam com uma mão cheia de nada. Haja decoro!”, concluiu Evaristo, o homem das contas da BR que ainda está a ver de uma maneira para ir comprar o cabrito da Páscoa ao amigo do costume…

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