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Retratos: Água

JC - 04/04/2019 - 9:33

Tobias, toda a vida cuidou do campo. Os seus 80 anos de agricultor à moda antiga garantiram-lhe a experiência que muitos cursos não dão. Hoje, olha para a terra com preocupação. - “Está seca. Eles bem deram chuva para a semana passada, mas pode ser que chova nesta. No meu tempo sabíamos o que aí vinha, mas agora com estas modernices, ninguém se entende. Já nem a minha perna me dói quando o tempo está para mudar!”, justificava à sombra da azinheira que tem na sua terra no Condado do Burgo.
Nesse dia Tobias juntou os camaradas e companheiros da Brigada do Reumático, de que também é sócio, para uma “faena à moda antiga, que é como quem diz, um almoço antecedido de um matabicho e que terminou com um lanche ajantarado”. 
- “O problema é que o país não se preparou para a seca”, disse Jeremias, presidente da Brigada do Reumático, enquanto dava o exemplo da “não construção das barragens do Aflito e do Barbaíto. Se não as tivessem cancelado já estavam feitas e se calhar até estávamos a preparar um passeio de barco ou uma pescaria”, acrescentou.
- “Isto para não falarmos no sistema de regadio que poderia ser implementado”, referiu Godofredo, secretário geral da BR, para quem o “interior da Nação Lusitana sempre foi olhado pela Kapital como um espaço onde estão lá umas pessoas que, coitadas, não sabem nada. Esse é que é o problema! Olham para o nosso território com olhar depreciativo de quem nunca teve outra vida do que andar em filas de espera, a correr de um lado para o outro, a comer à pressa o croquete, como se o mundo girasse todo nessa mesma correria”.
- “Nós aqui demoramos cinco minutos a chegar ao trabalho, comemos umas pataniscas com calma e o pastel de bacalhau com sabor sem stress e à noite ainda podemos ir ver um espetáculo dos que também passam na Kapital”, disse Evaristo, o presidente do Conselho Fiscal da BR, que não perde uma boa faena, ainda por cima na quinta de Tobias.
- “O problema é que eles acham que não e que aqui não precisam de investir. Esquecem-se é que a aguinha que lhes chega às torneiras vem do interior da Nação Lusitana e que se querem continuar a beber é melhor pensarem e construir novas barragens como a do Aflito e a do Barbaíto, não lhes vá faltar a dita…”, concluiu Jeremias, enquanto bebia mais um copo de tinto, acompanhado de uma fatia de queijo de ovelha feito à moda da mulher de Tobias...
JC

 

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