Jeremias, presidente da Brigada do Reumático, depois de ter comemorado a revolução dos cravos vermelhos, bem vermelhos e não de outra cor, está agora a preparar a festa daqueles que trabalham e dos outros que nada fazem. -“É acima de tudo um momento para juntar os que realmente dão corpo ao manifesto com os outros que, nada fazendo, criticam no que podem os que dão o seu contributo à sociedade”, justificou o líder da BR.
-“Mas isso não faz sentido. Juntar os que trabalham com os que nada fazem?!”, questionou, Tónio, 80 anos, 30 dos quais vividos na ditadura e três na guerra do Tramar, que na tarde de domingo cantou com a Brigada do Reumático a Grândola Vila de todas as cores.
-“Eu explico. Durante décadas a fio o Dia do Trabalhador foi comemorado por aqueles que efetivamente trabalham, mas também por muitos que apenas faziam de conta. Ora, se é assim, então que se mude o nome da festa para ser mais justo. Na BR decidimos fazer o Dia dos que Trabalham e Daqueles que nada Fazem. É uma questão de coerência, para não ofender ninguém”, disse Jeremias.
-“Mas depois como é que se sabe quem assinala do Dia do Trabalhador e quem comemora o Dia Daqueles que nada fazem?”, questionou, de novo Tónio, nascido e criado no bairro do castelo do Burgo.
-“Vamos distribuir crachás de cor diferente. Os vermelhos destinam-se aos trabalhadores. Os amarelos aos que nada fazem”, respondeu Godofredo, secretário-geral da BR.
-“Mas isso é descriminação!”, protestou Tónio.
-“Não, descriminação é só ao almoço”, retorquiu Godofredo.
-“Como assim?”, perguntou Tónio.
-“É simples. Os vermelhos têm acesso à zona MIT –«Muito Importantes trabalhadores», onde além do frango, febras e da sardinha assada, poderão degustar uns croquetes, pastéis de bacalhau e ovos verdes. Os azuis ficam na geral, onde além do pão com azeitonas, podem usufruir de uma bela esplanada para verbalizarem as suas críticas ao mundo do trabalho e ao patronato. Mas terão sempre a possibilidade de ganhar um crachá vermelho. Basta disponibilizarem-se para dar uma mãozinha nos assadores ou na lavagem da loiça”, esclareceu Godofredo.
-“Estou mesmo a ver aquela esplanada a falar”, concluiu Tónio, que por ser reformado tem direito ao crachá encarnado...