Jeremias, presidente da Brigada do Reumático, recorda, com saudade, aquilo que o seu avô, surdo de um dos ouvidos, lhe contava sobre a Grande Guerra, que terminou vai para 100 anos. –“Ficou só a ouvir de um dos lados porque o tipo que tocava a corneta para os avanços e recuos um dia lhe soprou na orelha direita. Nunca mais ouviu nada desse lado”. A história, diz o responsável da Brigada do Reumático, “é que nós, em crianças, pensávamos que o problema tinha sido algum bala ou algum estilhaço. Mas não, foi mesmo a corneta do Gervásio, um tipo com muita piada que aprendeu a tocar os sinais do inimigo e que, assim confundia o adversário, já que o campo de batalha não era muito longo”.
-“Eu bem me recordo do teu avô”, retorquiu Godofredo, secretário geral da BR, enquanto observava a trincheira colocada num espaço que noutros tempos foi a parada do quartel de cavalaria do Burgo. –“E era aqui que o teu avô e os seus camaradas viviam e combatiam”, disse.
-“É bem verdade. O meu avô, mesmo surdo de um dos ouvidos, nunca deixou de ser um burguense atento ao que se passava. E, apesar de ter ido à guerra, regressou forte e com ambição de constituir família”, disse Jeremias.
A conversa prosseguiu e terminou com umas castanhas assadas e uma jeropiga caseira. –“É o melhor que levamos desta vida”, disse Evaristo, presidente do Conselho Fiscal da Brigada, para quem a guerra das trincheiras agora é combatida na política e nas redes sociais.
–“São sinais dos tempos, e não se vê nenhum armistício à vista”, concluiu Godofredo, enquanto pedia a abaladiça.
JC