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Retratos: Luzes e afetos

JC - 26/11/2020 - 9:32

Tobias, 80 anos nascidos e criados no Burgo, no bairro mais antigo da Villa, já passou por muito, mas nunca teve um Natal em tempos de pandemia. -“Não se sabe bem se posso estar com a família. Eles vivem no Burgo, mas agora dizem que é proibido. Não sei se será o último Natal em que estejamos todos. É uma perspetiva que me deixa triste. Há 15 dias que não vejo os meus filhos, nem os netos, tudo para combater a maldita pandemia. Passo os dias a ler jornais e depois as maledicências que invadem as redes sociais, que eu apesar dos 80 que já vivi, sei mexer com as novas tecnologias”, referia, ao telefone, em conversa com Jeremias, presidente da Brigada do Reumático.
O telefonema era o quarto que Jeremias fazia nesse dia e insere-se no projeto “um telefonema não custa nada a não ser o custo da chamada” e que tem permitido contactar e apoiar os sócios da Brigada do Reumático. 
-“O assunto é sério. Há muito isolamento. Nesta quadra vão valendo os telefonemas e as luzes que este ano vão estar em mais ruas do Burgo. Ah! E a nova árvore de Natal, nas Docas, que os arautos da pimenta na língua, já começaram a criticar e ainda nem a dita está montada”, acrescentou.
-“Pois, mas o problema é o isolamento e a saúde das pessoas. O Burgo tem cada vez mais casos, como o resto da nação Lusitana. Depois critica-se tudo mas não se olha para a própria atitude que cada um tem. Ninguém faz tudo bem e há quem não tenha o hábito de lavar muito bem as mãozinhas. Nem depois do xixi! E de seguida vão escolher fruta à loja ou ao supermercado e mexem em tudo”, contestava Adalberto, 85 anos, sócio da BR, em resposta ao telefonema de Jeremias.
-“Veja lá que eu já nem à loja vou comprar pão. No outro dia estava numa superfície e a D. Josefina, que estimo muito, mexeu em todos os sacos dos papo-secos e não levou nenhum, optou por um pão de quilo, após a chamada escolha do apalpar. Levei farinha que, pelo que vi, ninguém apalpa os ditos pacotes”, disse Lordes, que há 76 anos vive no Burgo.
-“É bem verdade, todo o cuidado é pouco, que o vírus não escolhe pão de quilo nem papo-secos, nem maçãs ou peras reviradas. Todos temos que ser responsáveis, pois caso contrário o nosso Natal vai resumir-se às luzes nas ruas do Burgo e a afetos em modo virtual, e isso ninguém quer…”, concluiu Jeremias, na última chamada.
JC

 

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