Jeremias, presidente da Brigada do Reumático, recebera o telefonema do primo Josué, da Villa Farta, a anunciar que tinha ganho o segundo prémio do concurso de compras do Burgo. - “Em boa hora comprei as agendas do campo. Além de bonitas acabei por receber um vale de cinco mil eres para fazer mais aquisições no comércio tradicional do Condado”, disse, visivelmente satisfeito, enquanto referia que “agora vou comprar a compilação do livro da cozinha das avós”.
- “Muitos parabéns primo Josué. Que grande prenda de Reis!”, reafirmou Jeremias, que aproveitou para recordar a história do professor Falcão, que além de filósofo é um grande dramaturgo lusitano.
- “E que bem me lembro das suas aulas de filosofia, quando vivia no Burgo. Ele justificava que não jogava na lotaria porque o que era pouco provável de acontecer nunca acontecia. E eu, como nunca foi bafejado pela sorte, acreditava nessa tese. Mas agora coloco a teoria do professor Falcão em causa. Afinal, o que é pouco provável acontecer também acontece”, explicou Josué.
- “Grandes aulas, essas. E quando ele passava por nós na avenida do Liceu com o livro de ponto de baixo do braço em direção à sua casa, fazendo o caminho inverso, 10 minutos depois, lamentando o facto de ter levado consigo o dito caderno dos sumários”, recordou Jeremias.
- “Ou aquela vez em que disse que tinha a lua no bolso, com a célebre frase a minha carteira está na lua e a lua está no meu bolso. Nós todos a questionar o impossível e ele, para provar a sua razão, sacou da carteira do bolso e disse, bem alto, olhem-na aqui!”, prosseguiu Josué.
-“O que umas agendas, das boas, fazem!”, esclareceu Jeremias.
- “E se umas agendas fazem isso, imagina a malta na cozinha e as histórias que daí não vão sair. Afinal, é sempre bom voar ao passado para pensar no presente e preparar o futuro”, concluiu Josué, acrescentando que o almoço do próximo fim-de-semana é por conta do prémio...
JC