O Presidente da República foi ao cenário do “#EstudoEmCasa” para recordar a toda a comunidade educativa que esta é uma experiência única que todos devem aproveitar. Mas será esta “experiência única” igual para todos?
A poucos dias de terminar o 3º período, os professores continuam sem conseguir contactar a totalidade dos seus alunos através das multiplataformas tecnológicas disponíveis. Não nos esqueçamos que Portugal é um pais de assimetrias, onde os pacotes de internet disponibilizados pelas operadoras são dispendiosos, bem como a aquisição de equipamentos informáticos essenciais.
Em relação aos meios tecnológicos, os nossos governantes demonstraram preocupação em suprir as carências dos alunos, se bem que, em muitos casos, tarde demais. Mas, quanto à oferta de internet, não existiu uma estratégia de diálogo do governo com as operadoras, para descerem os valores dos seus pacotes e efetuarem uma cobertura a nível nacional, sem descurar as regiões interiores, onde a densidade populacional é menor, mas a necessidade de interação tecnológica com o mundo é maior.
A pandemia veio acentuar, de forma mais explícita, desigualdades, expondo a sociedade a fragilidades económicas e sociais. Se, por um lado, o trabalho à distância, o regime layoff e o desemprego aumentaram as dificuldades económicas, por outro lado, colocaram um desafio social às famílias.
Antes do confinamento, as crianças conviviam nas escolas, nas atividades de tempos livres (ATL), em contacto direto os amigos, podendo afirmar-se que, em alguns seios familiares, a falta de conexão entre os seus membros era tremenda.
Com o isolamento, a socialização passou a ser feita apenas em família, ou à distância, através dos meios tecnológicos. Esta pandemia veio restabelecer a ligação entre pais e filhos, forçando-os a passar mais tempo juntos e a retomar o seu papel como elementos essenciais no processo de transmissão de regras e valores, crescimento e socialização das crianças. Assim, o papel da família no processo de socialização passou de reduzido, pois as atividades laborais dos pais absorviam grande parte do seu tempo, para fundamental.
Contudo, o facto de passarem muito tempo juntos, nem sempre significa disponibilidade. Os pais, em regime de teletrabalho, têm de conciliar uma variedade de tarefas simultâneas, entre as quais acompanharem as crianças nas suas atividades escolares, o que, com a exigência das multitarefas, torna-se difícil. De igual modo, as crianças com aulas pela televisão e pelo computador, e com atividades escolares para fazer, não dispõem de muito tempo para dedicarem ao ócio e lazer.
Após quase três meses desta “experiência única”, podemos constatar que os alunos sentem falta dos amigos, do processo de partilha, da observação e contato diretos, de colocar as suas dúvidas presencialmente na sala de aula, de um processo educativo equitativo e igualitário. Também sentem falta de brincar, de desfrutar da companhia da família, isto é, ter mais tempo de ócio e lazer.
Agora que vivemos a experiência do confinamento, não podemos voltar aos erros do passado. Temos de permitir que as nossas crianças brinquem mais, livres e autónomas, dando-lhes tempo e espaço para desenvolverem a sua imaginação e criatividade, no fundo para crescerem. É brincando que as crianças apreendem regras e valores sociais e, sendo a escola o espaço onde as crianças passam mais tempo, não podemos deixar que se perca o prazer de brincar no contexto escolar, se quisermos uma sociedade mais humana e construtiva.