Cais está inundado. Foto Reconquista
“Samuel, olha aqui. Isto é o cais. Estás a conseguir ver?”. Lídia Isabel está de telemóvel na mão em videochamada com a família. A câmara transporta para longe a imagem dos barcos no meio do rio, como se estivessem a navegar. Só que os barcos que fazem os passeios no Tejo estão no lugar certo. O rio é que não. Poucos dias depois da tempestade Kristin, Vila Velha de Ródão foi confrontada com outra partida da natureza, com a chuva a fazer subir e muito o volume do Tejo. A primeira vítima foi o restaurante do cais, que ficou parcialmente submerso, apesar de estar a uns confortáveis 60 metros de onde habitualmente chega a água.
Lídia mora há sete anos em Vila Velha de Ródão e nunca tinha assistido a nada assim. De tal modo que quis mostrar aos netos aquilo que eles não conseguiam ver, que era a relva onde em tempos brincaram. “É uma sequência de catástrofes e de perdas para muitas pessoas”, diz em jeito de análise, falando também da fé que tem em Deus. As coisas “quanto têm de acontecer, acontecem”.
Abílio Neves, que tem 83 anos de vida e 70 de residência no largo da Administração, uma espécie de miradouro para o rio, tem uma outra visão do acontecimento.
“Antes de as barragens estarem feitas, a de Cedillo e aqui a de Fratel, isto acontecia praticamente todos os anos”, recorda. A maior terá acontecido em 1941, quando ainda era tão novo que não podia reter as memórias. Mas a de 10 de fevereiro de 1979 continua viva e relata-a com um fino sentido de humor: “a cheia entrou dentro da minha casa e foi-me visitar ao meu quarto”. O ponto onde chegou está imortalizado no muro da sua casa num painel de azulejos com a data do acontecimento. São uns bons 100 metros desde o leito. Pelo sim, pelo não, a família retirou as máquinas e protegeu os móveis do rés-do-chão, não fosse a água ter saudades de visitar o quarto de Abílio.
António Gonçalves, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Velha de Ródão, aparece pouco depois para ver como está a situação naquele fim de tarde. Era só mais uma visita, num dia que tinha começado ainda o sol não tinha nascido, mas a água já avançava. Também ele ainda tem na memória a cheia de 1979 e também a de 1989. Naquele momento ainda não sabia que não iria chegar a tanto, mas as notícias que vinham de Espanha não eram boas. Nesse dia, a 5 de fevereiro, a última barragem fronteiriça deixava passar 6300 metros cúbicos por segundo, valor que na tarde de segunda-feira, dia 9, tinha reduzido para 2100 metros cúbicos. No Fratel a descarga era também impressionante, como o presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão mostrou ao Reconquista através de um vídeo gravado com o seu telemóvel. “Há muitos anos que não me lembro de ver a água do Tejo tão cá em cima como agora”, disse António Carmona no início da conversa, em que o tom foi de tranquilidade. Às primeiras horas da manhã já os funcionários da câmara tentavam ajudar a mitigar os prejuízos que seriam óbvios, mas a água foi mais forte e ao final da tarde quase metade do edifício do restaurante do cais permanecia submerso. Mas no geral “as coisas estão controladas”, assegurava.
Além do Tejo, as ribeiras do Açafal e do Enxarrique também preocupavam e os bombeiros ajudaram a sinalizar os caminhos para evitar que alguém fosse apanhado desprevenido pela força da água. “E temos de juntar a isto a água que vem da serra”, salientou o presidente da câmara, que teve de cortar a estrada de Vilas Ruivas devido a derrocadas. O pensamento de António Carmona está já no verão, preocupado com a limpeza das matas. Quanto aos bombeiros, a tempestade de 28 de janeiro danificou o telhado do quartel e as chuvas trouxeram as infiltrações, “mas estaremos cá para ajudar quem precisa” - palavra de comandante.