Quem já jogou xadrez sabe que o peão é uma peça injustamente esquecida. Alinhados frente a frente no tabuleiro quadrangular, esta é quase sempre a primeira peça a ser movimentada no início de uma partida.
Frequentemente desvalorizada pelos jogadores mais inexperientes no desenvolvimento do jogo (e eu que o diga!), dada a sua limitação de movimentos, o peão não permite jogadas audazes e decisivas como a rainha, o bispo ou a torre.
Tirando o rei, peça fulcral do xadrez, o peão é a peça com a maior limitação de movimentos, andando apenas uma casa em frente ou na diagonal. «Carne para canhão» poder-se-ia dizer, mas o peão é fundamental no jogo.
Em primeiro lugar, o seu número e a sua linha condicionam a priori os movimentos das restantes peças no tabuleiro, sendo a primeira linha de defesa e de ataque de cada jogador. Em segundo lugar, um peão quando chega ao fim do tabuleiro converte-se na peça que o jogador quiser.
Sendo assim, é um erro grave desvalorizar o papel dos peões num jogo de xadrez, assim como é arriscado perder estas peças sem qualquer estratégia ou visão integrada do jogo que se desenrola.
Os peões são oito, exactamente tantos como as restantes peças de cada lado do tabuleiro. Juntos, conseguem desenhar uma linha defensiva para sacrificar algumas peças importantes do adversário. Sozinhos, são peças sem grande impacto na estratégia do adversário.
O cavalo ou o bispo acabam por ser peças mais difíceis para desenvolver o cheque-mate final, uma vez que os seus movimentos complexos permitem a fuga do rei desesperado.
Já os peões, avançando firmemente em direcção ao fim do tabuleiro, espalham uma rede de armadilhas que acaba por apanhar cavalos, torres e bispos, podendo emboscar o rei perdido e confiante de que a sua protecção pode apenas ficar a cargo das figuras mais importantes do tabuleiro.
Na vida, sobretudo na nossa vida profissional, os peões deparam-se com situações imprevistas porque as suas chefias acabam por não valorizar o seu trabalho e a sua mais-valia na equipa.
Ao considerarem estas peças perfeitamente substituíveis, as chefias minam o futuro organizacional e condicionam a motivação dos peões que deixam de pensar em chegar ao fim do tabuleiro para recuperar a rainha ou a torre que ajudará a vencer o jogo.
Com efeito, o papel dos peões é fundamental no jogo de xadrez, assim como na rotina das organizações, porque são os peões que mantêm a continuidade do negócio, garantindo que os procedimentos se cumprem com critério e rigor.
Ao contrário do que ingenuamente se possa pensar, o poder das restantes peças do tabuleiro de xadrez apenas existe, porque os peões as protegem e se sacrificam por elas numa rede de manha e entreajuda.
O xadrez não é um jogo difícil, mas para aqueles que tendem a desprezar as coisas simples da vida, o tabuleiro pode esconder surpresas que poderiam ser evitadas se as peças menos importantes fossem devidamente valorizadas.
Enfim, na vida profissional, tal como no xadrez, só valorizamos os peões quando estes já não se encontram no tabuleiro, quando nos apercebemos que já não temos hipótese de recuperar a rainha para poder vencer o jogo.