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Vêm aí novos velhos: Menos crianças e mais idosos

Florentino Beirão - 27/06/2019 - 9:27

Numa recente sondagem do Jornal de Notícias, publicada em 6-06.19, os entrevistados consideravam “haver na sociedade portuguesa uma forte valorização do cuidado das crianças, mas uma fraca preocupação com as gerações mais velhas. Só 22% entendem que existe uma forte ou muito forte preocupação com os idosos”.
Nesta linha, também o governo decidiu dar aos funcionários públicos, no primeiro dia de aulas dos filhos, até aos 12 anos, licença de faltar ao trabalho, no primeiro dia de aulas, durante três horas.
A realidade, todos a conhecemos. Hoje, as crianças, geralmente filhos únicos, são valorizadas de tal modo pelos seus pais e avós, que nada querem que lhes falte. Ainda bem que assim acontece. O facto de as famílias hoje terem menos filhos, sabe-se bem porque, teve como consequência psicológica e afetiva o aumento dos cuidados a ter com as preciosas e mimadas crianças. Só que, se bem observarmos o que geralmente acontece com os nossos idosos, as preocupações familiares com eles, não atinge cuidados tão exigentes. Muitos filhos chegam mesmo a depositar os seus familiares nos lares, descartando-se das suas obrigações. Como são cada vez mais os idosos com mais esperança de vida – esta continua a aumentar – a preocupação com eles tenderá a diminuir.
Como sabemos, num cenário de um inelutável envelhecimento demográfico, Portugal destaca-se, a nível internacional, na velocidade com que a sua população está a envelhecer. Face a esta constatação, não podemos fechar os olhos, como se nada estivesse a mudar. Novos tempos, com novos velhos, é para onde caminhamos, a passos largos.
Os números não enganam. O nosso país, muito em breve, vai ter mais idosos e menos crianças. Esta vai ser a realidade. Em pouco mais de meio século, a esperança de vida à nascença aumentou 17 anos. O Instituto Nacional de estatística (INE) revela-nos ainda que, por volta de 2080, a esperança de vida à nascença deverá ter aumentado para mais de 92 anos, no caso das mulheres e 87,4 nos homens. 
No mesmo estudo, no passado ano, os portugueses com 65 e mais anos, já representavam 21,8% da população residente. Eram 2,2 milhões de idosos contra os 1,4 milhões de jovens, até aos 14 anos. As estatísticas adiantam ainda que o nosso país soma 159,4 idosos em média, por cada 100 jovens. Segundo as projeções do INE para 2029, passará a haver 208,4 idosos por cada 100 jovens. 
Este estudo esclarece ainda que, do ponto de vista biológico, as pessoas que hoje têm 70 anos estão em condições físicas equiparável às que há poucas décadas tinham 50 ou 60 anos. Os médicos asseguram-nos que, desde que as pessoas façam exercício físico regular, não comam em demasia, não fumem e não bebam em excesso, podem envelhecer muito mais tarde, do que poucos há anos atrás.
Face a este novo panorama demográfico, a sociedade tem de organizar-se para responder aos novos desafios da população, constituída pelos novos velhos, nomeadamente, a nível dos cuidados de saúde, das reformas, dos lares, dos espaços verdes e do lazer, as acessibilidades e tantos outras medidas a ter de serem implementadas no nosso carente país.
Perante esta autêntica revolução demográfica que se está a gerar entre nós, a muito prazo, todos nos devemos interrogar, sobre o que “é ser-se velho hoje”.
Os sociólogos, por seu lado vão nos advertindo de que hoje temos que ver esta questão demográfica numa perspetiva de futuro, com um novo olhar prospetivo. Com mais anos de vida, para quem tem uma saúde normal para a sua idade, não faz sentido aos 65 anos as pessoas deixarem de trabalhar, uma vez que ainda têm em princípio muitos anos de esperança de vida. 
Segundo a socióloga Maria João Rosa, numa recente entrevista ao jornal “Público”, devemos desfazer o mito de que o envelhecimento é contrário à produtividade. E continua, “as pessoas deverão poder trabalhar até muito mais tarde, não necessariamente na mesma profissão, com pausas para estudarem a meio da vida. Devem ter oportunidade de trabalhar menos tempo, na fase em que têm os filhos pequenos”. Hoje, segundo ainda alguns estudiosos, deve-se considerar uma pessoa como velha, só a partir da altura em que, por razões de saúde, deixarem de ter autonomia pessoal. São novos tempos, com novos idosos, a viverem, felizmente, mais anos do que a geração anterior. 

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