Após a Suécia ter virado à ultra-direita, agora, foi a vez da Itália acompanhar tal viragem. O assalto ao poder acabou por ser consumado pelas forças mais retrógradas destes países, embora por razões diferentes. Trata-se d um clima inquietante para as nossas democracias, sempre em perigo. Os neofascistas da Suécia, pela primeira vez, subiram ao poder com 20% dos votos nas urnas. Na Itália, os Irmãos de Itália de Giogia Meloni ganharam destacados com 26% para os 19% do partido Democrático de Enrico Letta. Sendo assim, será ela a liderar o próximo Governo de Roma, numa posição de grande vantagem sobre os seus dois parceiros de coligação, a Liga de Matteo Salvini e a Força Itália de Silvio Berlusconi. Ambos não chegaram a 10%. O lema com que Meloni se apresentou às eleições é o mesmo de Benito Mussolini e do seu partido fascista que governou Itália entre 1922 e 1943. “Deus Pátria e Família” foi igualmente o lema da ditadura de Oliveira Salazar e agora do partido de extrema – direita nacional Chega de André Ventura.
A questão talvez mais importante desta viragem à extrema-direita é que ela poderá ser a uma perigosa transformação a que assistimos em demasiados países europeus nomeadamente a Letónia onde a ultra-direita faz parte do governo sem o dirigir, a Hungria, o Vox de Espanha, a Polónia, a Hungria, a Eslováquia e a Eslovénia e na França com Marine Le Pen. Esta vitória de Meloni na Itália acontece na pior altura. Todos batem palmas ao fascismo e tem um discurso revisionista sobre o Holocausto.
Este assalto da ultra-direita ao poder terá a ver com a crise do capitalismo que tem olhado mais para os muito ricos, deixando para trás os mais pobres, a crescerem desmesuradamente em Portugal e nos países da UE. Sabe-se que 1% dos mais ricos da população global possuem 43,4% da riqueza mundial líquida. Sem justiça social, sem políticas solidárias, campeia a pobreza que em Portugal atinge cerca de 20%.
Outra das razões terá a ver com o distanciamento dos políticos do povo. As múltiplas promessas não cumpridas têm criado um distanciamento entre eleitores e eleitos.
Para se colocar alguma resistência a esta avalanche da ultra-direita que ameaça a Europa, a
UE terá que rever muitas das suas políticas económica, financeiras e sociais. Os tecnocratas de Bruxelas, não eleitos, têm que descer à realidade e fomentar políticas que ajudem os governos a decidir políticas mais ajustadas a cada um dos países.
A grande vitória de Meloni na Itália vem na pior altura. Quando a União Europeia necessita de unidade e determinação para enfrentar a guerra ignominiosa de Putin na Ucrânia e quando os efeitos económicos e sociais prometem um inverno complicado, a extrema-direita europeia, como se sabe, nunca escondeu o seu fascínio por Putin, com a sua imagem de homem forte, a situação periclitante da Europa complica-se ainda mais. Como sabemos, tanto Salvini como Berlusconi nunca esconderam a sua amizade com o autocrata russo.
Berlusconi, em plena sintonia com Putin, chegou mesmo a afirmar que a invasão russa à Ucrânia era apenas “para substituir o Governo de Kiev, por pessoas decentes”. Tão decentes, que milhares de jovens russos têm atravessado as várias fronteiras da Rússia, para fugir à guerra que Putin quer acelerar com milhares de reservistas que vivem nas zonas mais pobres da Rússia. Esta volumosa procissão de jovens que assim fogem para não serem enviados para a guerra, diz bem da reacção do povo humilde e pobre a esta injusta e sanguinária guerra que quer anexar o que não lhe pertence.
A grande questão que hoje se coloca à União Europeia e a cada país que a compõe, ameaçados por esta avalanche de extrema-direita é a seguinte: Muitos são de opinião que se deve isolar e não lhe ligar importância porque é uma moda que irá passar com o tempo. Esta tese parece estar a perder credibilidade, revelando-se ineficaz porque estes movimentos extremistas têm avançado nos últimos anos.
Por sua vez, já há quem pugne pela sua integração, aceitando a sua normalização na vida política de cada país. Mas esta opinião é um risco. Face a este clima assustador, podemos concluir que novos tempos se aproximam, sem sabermos bem como lidar com esta nova realidade.
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