Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Viver: O que eu gosto de morar aqui

Paula Reis - 18/12/2025 - 9:02

Mãos e cara gelados do vento frio e seco ou chuva miudinha a tornar tudo escorregadio. Este era o «tempo da azeitona» quando a apanha, no lado sul da Gardunha, se fazia a seguir ao feriado da Senhora da Conceição.

Azeitona a azeitona, incluindo as que se escapavam do fato e que era preciso catar do meio da erva.

Agora temos a azeitona pronta a colher por volta dos Santos. Utilizam-se «bate-palmas» e a lógica de colher o suficiente faz com que a apanha do chão se desvalorize. Em muitos sítios, poda-se e colhe-se ao mesmo tempo.

O tempo meteorológico mudou, mas o tempo que dedicamos às tarefas agrícolas também se abreviou ou extinguiu-se.

Continuamos a querer os sabores de sempre, mas em modo de produção e compra acelerados porque estamos no tempo do imediato. Não guardamos um queijo para curar, colhemos fruta antes de tempo (que conservamos no frio para aguentar o tempo e condições dos canais de comercialização), não compramos carne a granel porque queremos saber o preço assim que pegamos na embalagem.

Muitos de nós, herdeiros de árvores de fruta, compramos fruta fora de época e deixamos cair e apodrecer a fruta que nos deram na infância.

Deixamos de aproveitar legumes porque são feios, e compramos os viçosos que duram dois dias antes de apodrecerem.

Temos uma cultura de acumulação que leva a que se transforme em desperdício boa parte dos alimentos que compramos.

Em todas as cadeias de produção incorporamos custos elevados para o ambiente em nome das lógicas de mercado.

Um exemplo industrial desta prática?

Importamos lã da Austrália para a produção de lanifícios nacionais e enterramos a de rebanhos criados em Portugal.

Vivemos a crédito num planeta que não comporta o nível dos nossos consumos.

Reciclamos pouco e compramos muito e de baixa qualidade o que torna o ciclo de vida muito curto.

Deixamos de reparar eletrodomésticos ou mobílias.

É neste cenário que nos chegam novos moradores à Beira Baixa que agradecem por aquilo a que muitos de nós já não dá valor: ar puro, água, hortas, sabores, segurança, serviços públicos de educação e saúde. Sabem que aqui o tempo rende mais e o horizonte é maior.

Nas Sarzedas, contava-me a anterior Presidente de Freguesia, organizaram-se para dar aulas de inglês à comunidade, depois de terem sido alunos de um programa do Estado Português, que lhes ensina a língua como forma de acolhimento.

Sou-lhes grata pela perspetiva que trazem e espero voltar a aprender com eles o valor do tempo de cada processo.

#oqueeugostodemoraraqui

COMENTÁRIOS