Imagino-me em Milão. Vejo-me a comprar pão, como aquele senhor que acaba de sair de uma mercearia a agitar um saco que dá cor ao soturno cinzento de uma rua deserta. Vejo-me cansado, não sei se apenas dos passos que dou para conseguir pão, se dos dias acumulados de clausura desconfiada, medrosa, impacientemente paciente. Sento-me num banco que não abriga ninguém; nem pombos. Só o meu cansaço ou a necessidade de céu para me soltar temporariamente das grades em que estou emparedado.
Imagino-me a ouvir, em Milão, a voz tonitruante de um polícia a proibir o gesto solitário e inofensivo de estar ali, quieto, talvez apenas com a inquietude que todos sentirão na cidade ameaçada. Imagino-me a sopesar o medo, o próprio medo de ter medo que é “justamente o que o medo quer”, como diz o “Poema Pouco Original do Medo” de Alexandre O’Neill. E oiço nos timbres daquela voz tonitruante, autoritária, o estampido do próprio medo. O medo de quem tem a obrigação de suster o medo. Um agente da autoridade a interpretar aquele gesto como um ato subversivo, ofensivo da ordem determinada pelo medo contagioso de mais contaminação, perante o gesto pacífico de poisar o cansaço num banco.
Imagino-me em abril de 1570, a regressar dos orientes, com Camões a meu lado, no convés do navio fundeado em frente de Cascais esperando ordem para entrar sem perigo de ser contaminado pela Grande Peste que já tinha reduzido a população de Lisboa a um terço. Cinquenta a sessenta mil, dizem as fontes, tinham falecido e a nobreza escapara-se para zonas de menor risco. A julgar pelos traços conhecidos da sua biografia, o nosso poeta não acolheria sem pestanejar a ordem do polícia italiano e talvez erguesse instintivamente a sua épica voz; e não só.
E imagino que a reação de Rieux, o médico protagonista do romance “A Peste”, de Albert Camus, seria diferente da do polícia que abordou o senhor que apenas buscava descansar um pouco das fadigas de ter de ir comprar pão e arejar um pouco as paranoias da reclusão. É que Rieux conhece a calamidade por dentro da calamidade; não obedece mecanicamente a ordens. Conserva a sua humanidade, a sua profunda compreensão, como Camus regista na sua ficção: “Rieux sabia o que pensava neste minuto aquele velho que chorava e julgava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ente e o coração maravilhado da ternura.”
Medo. Temos medo de um inimigo que se intromete anónimo e invisível no nosso corpo e, depois, exala contaminações multiplicadoras. Mais ou menos controlado, esconjurado, exorcizado, todos temos medo ante esta ameaça que não tem corpo e é latente e imprevisível. Volto a citar “O Poema Pouco Original do Medo” de O’Neill: “O medo vai ter olhos onde ninguém os veja (…) ouvidos não só nas paredes/ mas também no chão/ no tecto/ no murmúrio dos esgotos/ e talvez até (cautela!)/ ouvidos nos teus ouvidos”. E termina: “O medo vai ter tudo/ quase tudo/ e cada um por seu caminho/ havemos todos de chegar/ quase todos/ a ratos”.
Ficámos em estado de emergência e já sabemos que não durará as duas semanas preditas. São muitas as incógnitas. Conseguiremos suster o medo durante tanto tempo? Teremos de o vencer. Com senso, lucidez, racionalidade, humanismo. Todos: Presidente da República, Governo, administrações, profissionais da saúde e da segurança, eu, tu, ele e ela, nós vós, eles e elas. Se não, chegaremos a ratos.
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