
António Ramalho Eanes, o primeiro presidente da República Portuguesa eleito no pós-25 de Abril, fala com propriedade de um país no qual escreveu uma parte importante da sua história recente. Elogia os portugueses pelas suas muitas qualidades, mas considera que também têm alguns defeitos. A falta de ambição é um deles. A inveja é outro.
As palavras do presidente Ramalho Eanes devem merecer reflexão pois as duas caraterísticas estão interligadas e, em regra, conduzem sempre ao aparecimento de situações indesejadas, injustas e que orientam a opinião pública num sentido errado, de maledicência generalizada potenciada pelas redes sociais e, muitas vezes, pela comunicação social.
Há uns meses atrás, Eduardo Marçal Grilo, um dos bons ministros da Educação que o país teve, e considerando “que o país tem massa crítica suficiente para não desperdiçar o momento e preparar o futuro”, apontava à revista Visão três defeitos que na sua opinião os portugueses têm: “gostamos de nos autoflagelar, de estar do lado do problema (e não da solução) e somos invejosos: quando vemos alguém a voar… pum!”.
Num momento conturbado, onde tudo parece ser posto em causa, este sentimento presente em duas das figuras ímpares na vida democrática portuguesa parece dar resposta a muitos dos «faits divers» que tomam conta das conversas e que, não raras vezes, são potenciados nos jogos políticos da nossa democracia.
Enquanto jornalista entendo que a comunicação social tem, neste momento conturbado, em que tudo é posto em causa, uma responsabilidade acrescida. Nesta missão de informar o rigor deve estar acima de tudo o resto. Informar com rigor é informar com verdade. Mais do que nunca essa é a palavra chave. Só com rigor e verdade podemos informar em vez de desinformar.
Esta questão ganha outro relevo com os «sound bites» publicados num jogo político, onde às vezes parece valer tudo; na fuga ao segredo de justiça; nas redes sociais, com a falta de literacia mediática da população – onde muitas vezes impera a ideia de que tudo o que é publicado na internet é verdadeiro e em que há a tendência para maldizer apenas porque sim -, mas também com a necessidade que muitos órgãos de comunicação social (e outros que passam por o ser sem o serem de facto) têm em captar audiências utilizando meias verdades (e às vezes mentiras) sem qualquer tipo de punidade.
Digo muitas vezes ao meu filho que devemos saber pensar pela nossa cabeça e não pela dos outros. Perante o mundo moderno, este será o segredo para preservarmos a democracia e evitar o caminho da autocracia a que a inveja e a maledicência nos podem conduzir...