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A problemática dos imigrantes. Desprezo ou respeito solidário?

Florentino Beirão - 02/03/2023 - 10:03

Nas últimas semanas, o doloroso grito dos imigrantes não pára de se fazer ouvir. Após um silêncio ensurdecedor, a questão dos imigrantes saltou para as páginas dos jornais e para as rádios e televisões que clamorosamente nos atiraram para a frente dos olhos as condições indignas em que vive uma boa parte dos nossos imigrantes. Têm chegado de todos os lados, sobretudo de países asiáticos e africanos, para concretizarem aqui os seus projectos de vida ou fazendo de Portugal um lugar de passagem para outras paragens mais ricas. Mas o que é certo é que têm ocupado várias regiões do nosso território, sobretudo as grandes cidades e parte do vasto território do Alentejo e Beiras.
A sua chegada ao nosso país, com o SEF desde há muito em serviços mínimos, o controlo das chegadas têm passado despercebidas às autoridades que deviam prestar mais atenção à sua entrada. Por isso, de vez em quando, somos confrontados com tragédias como a que aconteceu no bairro da Mouraria em Lisboa onde, imigrantes a viverem numa pequena casa superlotada e sem condições de habitabilidade, foram vítimas de um incêndio que deu origem a dois mortos e catorze feridos. 
Como não recordar os imigrantes que, sazonalmente, se espalham pelo nosso território para trabalhos nas estufas ou colheitas de frutos, vivendo em condições desumanas?
Alguns empregadores sem escrúpulos têm explorado esta mão – de - obra barata, não cuidando da dignidade humana dos seus colaboradores. 
Sobre esta problemática, se tem manifestado o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que, sem demoras, se deslocou a Olhão para se inteirar da situação de um imigrante nepalês que foi espancado barbaramente por um grupo de jovens algarvios que já foram detidos para julgamento. O Presidente, face ao sucedido, manifestou “repúdio indignado por um ato que traduz xenofobia e intolerância inaceitáveis”. E acrescentou aos jornalistas que o acompanhavam: “não há justificação para a agressão de que ele foi vítima e eu pedi-lhe mesmo desculpa por isso”. Acrescentou ainda que “não há nada que justifique esse tipo de tratamento desumano, antidemocrático e criminoso que não pode ser aceite na sociedade portuguesa”.
Esteve também à altura do seu cargo quando, a este propósito, advertiu que “ num momento em que a economia portuguesa apela à vinda de imigrantes por falta de mão – de – obra, tem de se ter noção que isso implica estruturas adequadas para acompanhar aqueles que chegam, para evitar situações extremas”, como as que têm ocorrido recentemente.
Se este é o pensamento político do Presidente da República, alguns partidos do Parlamento não o têm acompanhado, desde a direita à extrema-direita. Bem pelo contrário, têm manifestado algum desprezo pelos imigrantes e pela sua vinda para o nosso país.
Esquecem-se certamente que os portugueses, ao longo dos anos, têm procurado a emigração como forma de se libertarem da miséria em que viviam. Nomeadamente, a partir dos anos 60, com o movimento emigratório que levou para a Europa, sobretudo França, uma numerosa leva de trabalhadores que deixaram as nossas aldeias do interior despovoadas.
Mesmo hoje, quantos jovens pegam nas suas malas e procuram, sobretudo na União Europeia, melhores condições de vida do que as que lhe são oferecidas no seu país?
Quem se vira contra a imigração, esquece certamente da necessidade do nosso país, em tentar resolver um problema vital que é o deserto demográfico que se está a abater sobre nós. Basta olhar para a curva demográfica para tomar consciência de que necessitamos, com toda a urgência, de todos aqueles que queiram vir para Portugal. Hoje, já são vários sectores da nossa economia que vivem, predominantemente, de mão-de-obra imigrante. Basta abrir os olhos e deparar-se com os brasileiros a servirem em cafés e restaurantes e asiáticos a trabalhar nas cozinhas. Não faltam ainda imigrantes do Leste e dos países africanos de Língua Oficial Portuguesa, a trabalhar na construção civil. Ao pagarem os seus impostos e contribuições para a Segurança Social, estão a contribuir para a solidez da mesma, da qual todos beneficiamos.
Por isso perguntamos. Onde está a Agência para as Migrações e Asilo (APMA)? Porque perdura a espécie de greve de zelo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras? Tratemos os imigrantes como pessoas e não como bichos. Passemos do desprezo ao respeito solidário.
Na verdade, do que necessitamos urgentemente, é de uma verdadeira democracia inclusiva.
florentinobeirao@hotmail. com

 

COMENTÁRIOS

José Manuel
à muito tempo atrás
A questão é se Portugal tem condições de atração e de fixação de mão de obra para trabalhar aos preços que os patrões querem pagar. Se assim fosse não emigravam tantos portugueses e os milhares de pessoas da Ásia Meridional que nos procuram fixavam-se, em vez de virem apenas buscar o valioso cartão de residência que lhes vai facilitar a vida dentro da União Europeia.