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Alimentar a saúde do planeta e das pessoas

Fernando Maia * - 11/09/2025 - 9:49

Na atualidade, urge repensar a forma como nos relacionamos com a alimentação, a saúde e o ambiente. O conceito “One Health” — Uma Saúde — surge como resposta integrada às ameaças globais que enfrentamos, defendendo que a saúde humana está intrinsecamente ligada à saúde animal e ambiental. Não se trata apenas de uma perspetiva científica, mas também ética e transformadora.

Na edição anterior deste jornal destacou-se, com grande clareza, que a prevenção das doenças crónicas não transmissíveis (DCNT), responsáveis por cerca de 71% das mortes em todo o mundo, depende inevitavelmente de mudanças nos nossos estilos de vida e da forma como nos alimentamos. O microbioma intestinal, a qualidade dos alimentos e a saúde dos solos encontram-se intimamente interligados.

A Escola Superior Agrária de Castelo Branco foi essencial para a definição do meu trajeto académico e profissional. Formado em Engenharia Biológica e Alimentar, e com mais de uma década de experiência no acompanhamento de diversas indústrias do sector alimentar, defendo que uma alimentação saudável, equilibrada, variada e produzida de forma sustentável e segura constitui uma poderosa ferramenta de promoção da saúde. Fomentar esta cultura alimentar é, para mim, mais do que uma escolha: é uma missão. E esta missão começa na origem dos alimentos.

A utilização de alimentos de origem controlada, provenientes de sistemas agrícolas que respeitam o equilíbrio ecológico, livres de químicos agressivos e com rastreabilidade garantida, representa uma das melhores defesas que temos contra o desenvolvimento de doenças. Solos saudáveis geram alimentos mais nutritivos, que fortalecem o sistema imunitário e reduzem o risco de patologias como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Neste contexto, a InovCluster – Associação do Cluster Agro-industrial do Centro assume um papel de verdadeiro catalisador da mudança. É uma estrutura de apoio à inovação, que tem desenvolvido, em articulação com empresas, instituições científicas e organismos públicos, soluções concretas para um setor agroalimentar mais sustentável, competitivo e alinhado com os princípios de One Health.

O desenvolvimento de projetos como o Gate 5.0, que acelera a transição digital das empresas agroalimentares, o Hub4Food, que promove a introdução de componentes marinhos como uma aposta na inovação e valorização das fileiras agroalimentares, o Roteiro para a Descarbonização do Setor Agroalimentar, que traça soluções práticas para reduzir a pegada de carbono da produção alimentar, ou o inovador Beeland, que promove a apicultura sustentável e protege os polinizadores — elementos fundamentais para a saúde dos ecossistemas — refletem claramente este compromisso. São iniciativas que demonstram que é possível conciliar inovação, economia e sustentabilidade num mesmo propósito: a promoção da saúde global.

Castelo Branco poderá afirmar-se como uma cidade-modelo “One Health”. O projeto do Vale da Europa, que integra investigação, ciência, saúde e ambiente, será um farol nacional nesta abordagem. A criação de uma academia dedicada a este conceito, é uma oportunidade chave para a região e um exemplo de visão estratégica para o futuro.

Precisamos de unir ciência, inovação e cultura alimentar para construir um sistema que produza alimentos mais saudáveis, que respeite os limites do planeta e que promova verdadeiramente o bem-estar das populações. A saúde humana não pode dissociar-se da saúde dos ecossistemas que a alimentam.

No fundo, “One Health” convida-nos a uma visão holística, ética e colaborativa. Convida-nos a cuidar da Terra como cuidamos de nós mesmos.

Porque uma só saúde... é também uma só responsabilidade.

 

*Gestor de Projetos na InovCluster

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