Quando todos esperavam pelo desmantelamento da central, o governo espanhol prolonga a licença de laboração até 2030, o que não agrada a ninguém.
Apenas as empresas que exploram a central apontam vantagens
O Ministério da Transição Ecológica e do Desafio Demográfico espanhol, renovou até junho de 2030 a licença de operação das Unidades I e II da Central Nuclear de Almaraz, de acordo com uma portaria publicada sexta-feira, dia 14 de agosto.
Ao invés do desmantelamento gradual dos dois reatores (a unidade I a 1 de novembro de 2027 e a unidade II a 31 de outubro de 2028), o governo aceita o pedido feito em outubro de 2025 pelas empresas Iberdrola, Endesa e Naturgy, que são “donas” da central.
Na portaria é referido que esta autorização “está sujeita ao rigoroso cumprimento das condições e instruções de segurança emitidas pelo Conselho de Segurança Nuclear, que emitiu parecer favorável, condicionado ao cumprimento dos limites e requisitos de segurança nuclear e proteção radiológica agora definidos na portaria”.
Esta decisão também é justificada pelo ministério pelo “novo contexto energético internacional e na volatilidade dos preços do gás resultante da crise no Médio Oriente”.
As reações contrárias a esta decisão não tardaram, sobretudo na região da Beira Baixa, a mais próxima, em linha reta, da central nuclear de Cáceres.
A Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa (CIMBB) vai questionar o Ministério do Ambiente no sentido de apurar se tomou alguma medida junto do governo espanhol, dando conta do desacordo como pedido de prolongamento feito pelas empresas.
“Esta decisão do governo espanhol é controversa, pois não está dentro do que estava acordado e era esperado por todos”, afirma João Lobo, presidente da CIMBB, não escondendo a apreensão com esta novidade.
“As instalações têm muita idade e a tecnologia para a produção de energia está ultrapassada e obsoleta, não garantindo, por isso, a segurança necessária”, reitera, esperando uma tomada de posição do governo português, “pois em caso de acidente, o maior impacto poderá ser na Beira Baixa, mas Portugal inteiro será afetado”.
A preocupação é partilhada pelos autarcas da região. Leopoldo Rodrigues, presidente do Município de Castelo Branco defende que “aquela unidade já devia estar a ser desmantelada, pois era esse o caminho, dado que há muito está em fim de vida útil”.
Avança que vai “procurar saber, junto das entidades espanholas, que garantias de segurança existem para ter sido aprovado este prolongamento de vida de Almaraz”.
António Carmona, presidente do Município de Vila Velha de Ródão, também não esconde a apreensão. “Esta decisão provoca uma profunda apreensão e até revolta, porque o que todos esperávamos era que o desmantelamento desta central fosse, finalmente, uma realidade”, afirma o autarca, que se mostra estupefacto com a decisão e lamenta que isto pareça ser “o poder do mais forte”, até porque, como sublinha “é em Vila Velha de Ródão que o Tejo entra em Portugal e muitas das consequências daquela laboração vêm rio abaixo”. E reitera que “não é possível andar toda a gente preocupada com as centrais fotovoltaicas e não se tenha uma reação idêntica sobre esta matéria”, acrescentando que vai questionar o Ministério do Ambiente sobre as medidas que tomou sobre esta licença.
Também a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova manifestou publicamente “a sua grande preocupação face à decisão do governo espanhol”, que considera ser “uma ameaça ambiental, económica e de segurança latente para toda a Beira Baixa, a região e o país, e em particular, para o concelho de Idanha-a-Nova”.
O executivo municipal lembra que “a escassos 100 quilómetros da fronteira portuguesa e dependente diretamente do rio Tejo para a refrigeração dos seus reatores, pelo que a central de Almaraz constitui um fator de risco inaceitável, recusando-se a “pactuar com a manutenção de um modelo energético assente no risco nuclear”. E exige que o governo português assuma uma posição firme junto de Madrid e das instâncias da União Europeia.
REAÇÕES O Partido Ecologista “Os Verdes” escreveu uma carta aberta à ministra do Ambiente e Energia para que interceda junto do governo espanhol pelo encerramento definitivo da Central Nuclear de Almaraz. O pedido a Maria da Graça Carvalho vem na sequência da posição do CSN de Espanha que não colocou entraves a este prolongamento. Para os Verdes, Almaraz “é um perigo à nossa porta, em particular para os distritos fronteiriços de Castelo Branco e Portalegre, pela sua proximidade, mas também para as demais populações ribeirinhas do Tejo, nomeadamente de Santarém, Setúbal e Lisboa”.
Posição idêntica chegou da associação ambientalista Zero, que exige que governo português que se manifeste contra esta decisão.
“É importante que, de facto, o governo assuma publicamente uma posição crítica em relação a este adiamento do encerramento de Almaraz e que exija a Espanha que o calendário seja cumprido”, sublinha a Zero.
Em 2030, a Zero lembra que a unidade I encerrará com 49 anos de operação e a II com quase 47, “muito além dos 40 anos para os quais reatores de água pressurizada foram originalmente projetados”. Reclama ainda “o estabelecimento de um plano luso-espanhol de armazenamento e flexibilidade elétrica, devidamente financiado e calendarizado, que incida sobre as necessidades de estabilidade do sistema elétrico ibérico, a redução drástica da dependência do gás e alinhado com o calendário de encerramento de todas as centrais nucleares na península até 2035.
Recorde-se, tal como Reconquista já tinha noticiado, que o Observatório Ibérico de Energia (OIE) já tinha acusado o governo português de “silêncio” neste processo.
O Reconquista questionou o Ministério do Ambiente e Energia, mas não obteve resposta em tempo útil.