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Caféde: Histórias de Vida numa Aldeia da Beira Baixa (3)

João Prata Augusto - 26/06/2026 - 11:00

Caféde sempre foi uma aldeia especial para mim. Ali passava tempos que pareciam não ter fim e o futuro, a fase adulta, as responsabilidades, a escola, tudo parecia tão distante.

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Caféde sempre foi uma aldeia especial para mim. Ali passava tempos que pareciam não ter fim e o futuro, a fase adulta, as responsabilidades, a escola, tudo parecia tão distante. Ali o tempo parava e os minutos pareciam eternos.

Nas tardes de verão, em que as folhas das árvores estalavam de tão quentes que estavam, em que era muito desconfortável estar no exterior das casas, eu registava em cassetes no gravador que os meus pais me tinham oferecido, as vozes dos meus avós paternos, a contarem as suas histórias dos campos, das noites de inverno medonhas, dos encontros com “a má hora” (personagem imaginária que o meu avó efabulava que via em determinadas noites, com forma de gente, com um manto negro e que com a sua suposta existência mantinha todos dentro das suas habitações no breu da noite e em especial em noites de temporais). Nessas alturas arrepiava-me e sentia um frio na “espinha”. Mas gostava de ouvir essas histórias de medo e fantasia. Como gostava de ouvir o meu avô paterno cantar loas à sua esposa (minha avó paterna que carinhosamente sempre me chamava por “meu netinho”). Para mim ficou sempre a ser a “avó do netinho”.

“Já não há tinta na loja

Nem papel na papelaria

Para escrever uma carta

À minha querida Maria”

E nessas memórias não poderá nunca faltar as das primeiras festas em honra de Nossa Senhora do Valverde (5 semanas depois da Páscoa) em que estive presente. A música troava no ar, os bares vendiam bebidas várias e trouxeram a minha primeira bebedeira (muito poucas ao longo da vida, na realidade), curada nos muros (e águas) do chafariz da aldeia. E a procissão no domingo no recinto da ermida. O sagrado e o profano juntavam-se nesses dias, vinham amigos, primos, faziam-se e partilhavam-se farnéis. Eram dias de que gostava particularmente. Como também, com o passar dos anos e com o aproximar da idade adulta, gostava de ir a outras festas de outros povos vizinhos – como por exemplo, a Senhora da Encarnação na Póvoa de Rio de Moinhos e a Rainha Santa nas Tinalhas.

Não posso esquecer, evidentemente, os amigos da mesma idade que ia fazendo durante aquelas estadias, e que me faziam companhia nessas festas, nesses eventos, calcorreando por aquelas ruas, com quem jogava à malha nas pedras das calçadas, às cartas e ao dominó nas mesas dos cafés, que ia vendo crescerem como eu crescia. Alguns (infelizmente) partiram cedo, outros mais recentemente. Todos me fazem falta – Joaquim, Zé Manel, Alberto, Catarro, Raul …

E também não posso esquecer a alegria do primeiro encontro da Família Prata (evento só possível depois do 25 de abril de 1974), realizado nos arredores da aldeia. Primos e primas (alguns de segundo, terceiro, quartos graus), tios e tias, alguns amigos, boa comida, tudo terminava em romaria e cantorias. Foi um evento que se foi mantendo e mantendo, até aos dias de hoje. Fui descobrindo que Caféde não era especial apenas para mim, mas para muitos outros, era um sentimento partilhado.

Por isso, para além do encontro propriamente dito (sempre no primeiro sábado de setembro), passou a haver um acampamento para os jovens da família. Recordo com principal emoção o primeiro. Foi especial. Acampar em tendas, conviver com a natureza, com os primos, com os amigos, evitar os lacraus que por ali proliferavam, dormir ao relento com pequenas melancias a servirem de travesseiro e olhar para as estrelas podendo encontrar todas as constelações de que me lembrava ter aprendido nos livros escolares, comer bolos na fonte dos poços, à noite, com dezenas de formigas que não víamos apenas sentíamos.

Eram tempos mágicos.

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