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Caféde: Histórias de Vida numa Aldeia da Beira Baixa (4)

João Prata Augusto - 30/07/2026 - 10:30

Em Caféde passava as férias escolares (grandes, muito grandes, para minha felicidade), a Páscoa, os Natais. De vez em quando também ia a casamentos, batizados, funerais.

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Em Caféde passava as férias escolares (grandes, muito grandes, para minha felicidade), a Páscoa, os Natais. De vez em quando também ia a casamentos, batizados, funerais. A aldeia e as suas gentes estavam sempre na minha cabeça, na minha memória, nas minhas recordações. Senti-a a pulsar cá dentro, como que uma companhia silenciosa, um sítio a que se pertence sem se perceber bem porquê.

E fui-me habituando àquelas atividades, àquelas gentes, aqueles cheiros, àquelas vistas, aqueles horizontes, àquelas casas em pedra, àquelas ruas sinuosas. Às árvores, aos arbustos, aos caminhos, às hortas, aos poços, às rochas, às fragas, aos montes, aos cursos de água, aos animais, aos sons das cigarras e dos grilos, às festas, às tradições, aos sabores, ao cheiro da terra molhada, às brisas quentes dos estios e àqueles ventos frios e cortantes de inverno que vinham da zona da Serra da Estrela (a que um dos meus tios chamava de “aragem criadora”)

E fui-me apaixonando. Os anos foram passando, passou a infância, passou a adolescência, veio a fase adulta e as atividades profissionais. Mas aquele sentimento especial foi permanecendo, é algo que se cola à pele sem nos apercebermos. Só o percebia quando voltava, pontualmente e temporariamente, àqueles lugares e sentia algo de estranho em mim, uma sensação de … pertença àquele lugar, de me sentir em casa. Voltava para confraternizar, sobretudo, comigo mesmo … provavelmente com as minhas memórias, com as minhas recordações.

Mas, tal como já o escrevi atrás, também sei que este sentimento não é só meu … é partilhado. Destaco sobretudo, e certamente não me levarão a mal por isso, todos os meus familiares que recentemente abraçaram uma causa comum que se chama ADCR de Caféde. Que fazem centenas de quilómetros com enorme frequência para estarem lá. Tal como eu, poucos ali nasceram. Mas não vivem em plenitude sem lá ir, sem lá estar. É esse o segredo desta terra, é este o espírito – agarra-nos, prende-nos, mas em contrapartida, dá-nos vida. Dá-nos propósito para além da sobrevivência. Dá-nos emoção.

Sei que esta terra não é minha, é certo; nem será talvez de ninguém, mas somente de quem dela goste. Mas, como já o disse anteriormente, sinto também que tem uma alma própria que se alimenta de saudades, mas também de momentos, de vivências, de estados de alma, de cheiros, de sensações, uma espécie de essência que insufla vida e vontade de a viver.

Nessa sequência foi com naturalidade que ali comprei terreno e edifiquei uma moradia. E sempre que ali estou ou sempre que levamos amigos, alguns de sítios e locais bem longínquos, sinto igualmente que, de alguma forma, transmitimos este sentir especial, sinto que partilhamos emoções.

Um sentimento que se entranha no nosso ser, que nos retira racionalidade, mas que nos alimenta, nos faz seguir caminho … até um dia … porque se nós somos finitos, julgo que esta terra não o será …

“viverá sempre na memória dos que aqui nasceram, dos que nela viveram, dos que por aqui passaram ou dos que dela ouviram falar.”

 

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