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Retratos: Calimero

JC - 24/08/2017 - 9:30

Lá na escola havia, no tempo em que Jeremias fazia contas com a tabuada bem decorada, um colega a quem por graça chamavam Calimero. O nome pegou e por ironia do destino, até veio a ser a graça de um personagem de desenhos animados que nos anos 80 entusiasmou os filhos do presidente da Brigada do Reumático. 
Tal como na escola, também nos bonecos, Calimero era uma figura que não parava de se queixar por não conseguir os resultados que queria. –“Um dia até acusou o meu colega do lado, Rebordinho – que Deus tem vai para uma década, por este o ter copiado numa matéria que Calimero não dominava. –“Não é justo eu é que devia ter ganho o concurso das serras e das linhas do pouca terra!”, argumentava para com o professor Poiadas, enquanto dizia raios e coriscos de Rebordinho, que tinha estudado a matéria a tarde toda do dia anterior.
O Calimero era assim. Uma vez quiseram eleger um representante dos alunos da quarta classe para ir receber o chefe do Conselho. Calimero candidatou-se. Perdeu. Como sempre foi queixar-se ao diretor que ele é que deveria ter ganho, que estavam todos contra ele. –“Eu até sou todo bem falante, dizem que sou bonito e agora escolheram o Ambrósio, que coitado até tem uma falha no dente. Mas que por isso é o protegido de todos, até do jornal da escola que só divulga os feitos dele, como os golos que marcou contra a escola do castelo. De mim nem nada disseram, eu que fui um suplente de luxo, daqueles que todas as equipas desejavam ter. É uma injustiça!”, disse, perante o ar de poucos amigos do diretor, que de imediato lhe retribuiu umas boas reguadas, as quais lhe serviram de guia para o resto da sua vida.
-“Mas nesse tempo não havia jornal de escola!”, disse Godofredo, secretário geral da BR, que estudava numa outra escola do Burgo. 
-“Pois não, mas o Calimero era um visionário, e já estava adivinhar que um dia haveriam de existir muitos «calimeros», quais vítimas da sociedade, a queixarem-se da imprensa, das mulheres e dos homens, dos canários e dos periquitos, por não conseguirem ser os escolhidos”, esclareceu Jeremias.
-“E o teu Calimero, ainda anda por aí?”, perguntou Godofredo.
-“Esse já não, mas a sua herança está a ser honrada pelo Grande Calimero. Um homem íntegro e temente a Deus, que tem apostado na vitimização que a democracia lhe trouxe”, concluiu Jeremias, enquanto partia de férias.

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