Há fins de semana que marcam de forma indelével a memória e o percurso de um território. O último foi, sem dúvida, um desses momentos maiores para o Concelho de Castelo Branco. Foi um tempo de reencontro, de afirmação coletiva, de exaltação das nossas raízes e, acima de tudo, de uma demonstração viva da fibra de que é feita a nossa gente.
Vencida a adversidade e superados os dias mais sombrios que se seguiram à tempestade Kristin, que deixou marcas profundas na nossa paisagem e nos impôs prejuízos estimados em cerca de 22 milhões de euros, Castelo Branco soube erguer-se com uma dignidade, uma coragem e um sentido de união que nos devem encher a todos de um profundo orgulho.
Quando tomámos a decisão política responsável, em conjunto com os senhores presidentes de Junta de Freguesia, de cancelar a maioria dos eventos previstos para este ano, fizemo-lo com responsabilidade e com a clareza de quem sabe governar com prioridades.
O compromisso de reduzir custos não foi um mero ato de contenção orçamental, mas sim uma opção ética e de rigor para garantir que cada euro disponível continuasse e continue a ser canalizado para onde é verdadeiramente vital, nomeadamente a reconstrução de infraestruturas, a reparação de equipamentos, a proteção do nosso património e o apoio às Juntas de Freguesia.
Porém, nessa matriz de rigor, manter o Festival Sabores de Perdição impunha-se não como um gasto, mas como um investimento estratégico na própria alma e na economia da nossa terra. O festival é o motor vivo da nossa atividade económica local, a montra por excelência do trabalho de quem cultiva a terra, de quem produz com mestria, de quem preserva o artesanato tradicional, de quem dinamiza o comércio e de quem cria cultura no nosso Concelho.
A edição de 2026 dos Sabores de Perdição assumiu, por isso, um carácter profundamente simbólico e inovador, sendo uma edição assumidamente 100% Castelo Branco.
Pela primeira vez na história do certame, abrimos a entrada principal do recinto no Centro Cívico à presença física, participativa e ativa das nossas Juntas e Uniões de Freguesia. Fizemo-lo para deixar claro que em Castelo Branco não há territórios de primeira e de segunda, nem cidadãos periféricos. A cidade não existe sem as freguesias, e as freguesias encontram no centro urbano a sua caixa de ressonância natural. Somos, desde a localidade mais longínqua da cidade, ao núcleo urbano, um único concelho, coeso e indivisível.
Esta coesão e representatividade refletiram-se diretamente na vivência do recinto, onde estiveram representadas 15 freguesias, com 27 produtores no Espaço Sabores, 21 artesãos no Espaço Saberes e 12 tasquinhas integradas no espaço Petiscos com Sabor.
Essa opção de valorização do “ouro da casa” traduziu-se também numa programação cultural integralmente preenchida pelo talento albicastrense. Os nossos músicos, os nossos grupos folclóricos, as nossas associações e os nossos criadores foram os verdadeiros e grandes protagonistas dos palcos. O balanço económico e humano do festival fala por si, uma vez que a grande maioria dos expositores manifestou uma enorme satisfação com os resultados obtidos, e a afluência do público encheu de vida o coração da nossa cidade.
Esta visão de coesão territorial expressou-se também no acolhimento da 3.ª etapa do Grande Prémio de Ciclismo TSF/JN, desenhado para percorrer as nossas freguesias e aldeias, levando a festa do ciclismo praticamente a todas as freguesias, e na realização da Bienal Internacional de Artes e Ofícios 2026, evento que elevou o nosso prestígio como Cidade Criativa da UNESCO no domínio do Artesanato e Artes Populares. A par disto, a vitalidade desportiva demonstrou a sua força em eventos de referência como o 59.º Ralicross da Escuderia Castelo Branco e a 2.ª edição do Estágio Internacional de Judo The GOAT.
Sabemos que haverá sempre quem prefira a crítica sistemática, aquele bota-abaixo não fundamentado de quem faz da oposição ao progresso o seu modo de estar. Contudo, nada nos tira do caminho. O Executivo Municipal está focado, atento, próximo e sensível àquilo que ouve verdadeiramente da comunidade, concentrado naqueles que trabalham, constroem e querem ver o Concelho avançar.
Para reforçar esta onda de energia positiva, o fim de semana trouxe-nos a confirmação de que nosso lindo Jardim do Paço Episcopal garantiu a sua passagem à grande final nacional das Novas 7 Maravilhas de Portugal, na categoria de Turismo, sendo o único monumento do território continental português a ser apurado para esta fase final. Esta vitória é o prémio da mobilização extraordinária dos albicastrenses, que se uniram na votação e na divulgação do nosso património.
A autoestima de uma comunidade não se decreta nem se improvisa, constrói-se na forma genuína, calorosa e profundamente nobre com que os albicastrenses sabem acolher, resistir e superar. Há na nossa gente uma postura única, uma altivez humilde e uma força tranquila que nos distingue e nos projeta. Continuem a confiar, a exigir e a ter orgulho na nossa caminhada comum.
No entanto, este fim de semana de celebração não nos afasta um segundo da realidade exigente em que vivemos. Celebrar a nossa identidade faz parte do processo de cura e de reconstrução, mas o trabalho pesado da Câmara Municipal continua, sem tréguas, no terreno. A tempestade Kristin passou, mas as suas cicatrizes ainda exigem uma ação diária. Nenhum evento, por maior que ele seja, faz esquecer a necessidade de reconstruir, pelo contrário, o sucesso do mesmo, dá-nos a energia reforçada para continuar as intervenções de que o nosso território com acrescida determinação. Governar é precisamente este equilíbrio entre responder às emergências materiais do presente, cuidar das infraestruturas e, simultaneamente, alimentar a alma, a autoestima e a economia da nossa comunidade.
Castelo Branco e os albicastrenses demonstraram que não se vergam perante as tempestades. É uma terra de gente trabalhadora, solidária, focada na resolução de problemas e orgulhosa da sua história. A todos os que tornaram este fim de semana inesquecível, incluindo dirigentes e trabalhadores do município, Juntas de Freguesia, empresas, produtores, artesãos, artistas, associações e visitantes, deixo o meu mais profundo e sentido agradecimento.
Seguimos juntos, com trabalho no terreno e orgulho no coração.
Bem haja!
*Presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco