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Castelo Branco: A invasão na guerra dos sete anos

Jaime Magueijo e Coronel Manuel Rolão - 30/12/2025 - 9:01

No contexto da Guerra dos Sete Anos (1756–1763), Portugal foi arrastado para o conflito em 1762, após reforçar a aliança com a Inglaterra. A ofensiva hispano-francesa que se seguiu transformou a Beira Interior num dos palcos centrais da campanha peninsular. Após o colapso da ofensiva espanhola no norte, o exército comandado pelo conde de Aranda reorganizou-se e avançou para a Beira Baixa, com Penamacor a assumir-se como ponto de concentração das forças invasoras e base para a marcha em direção a Castelo Branco, principal centro administrativo e logístico da região.

A 11 de agosto de 1762, em plena Guerra dos Sete Anos, o governador da praça de Castelo Branco, José Leite de Sousa, escreveu ao conde de Lippe uma carta dramática sobre o estado da defesa da vila. No seu relatório, alertava que as muralhas se encontravam em ruínas e que, para defesa efetiva, apenas dispunha de dois pares de soldados holandeses que ali se tinham refugiado. Reconhecendo a impossibilidade de resistir a um ataque espanhol, afirmava que, mesmo com guarnição, a vila não aguentaria mais do que uma hora sob assédio, e não poderiam resistir mais do que dois dias. Perante este cenário de fragilidade, José Leite de Sousa recomendava o abandono da praça, considerando que a manutenção de tropas naquele local apenas redundaria em sacrifício inútil de homens e recursos.

Entre os dias 9 e 15 de setembro de 1762, Penamacor caiu nas mãos espanholas. Um destacamento liderado por D. Joaquim de Mendoza tomou a praça mediante capitulação, permitindo aos invasores apoderaram-se de um importante arsenal militar: oito peças de artilharia de bronze, treze peças de ferro, três morteiros, três petardos, cerca de 1.200 caixas de balas de mosquete, 3.500 balas de artilharia e diversas munições e víveres. Apesar de uma tentativa de fuga pela guarnição portuguesa, o governador, coronel D. José Pereira Miguéis, foi capturado, juntamente com oficiais do estado-maior, e enviado sob custódia ao conde de Aranda. Este episódio revelou a superioridade logística e operacional das forças invasoras e deu-lhes um ponto de apoio vital para novas investidas.

O exército espanhol, reforçado por um corpo auxiliar francês, era vasto e bem estruturado. Reuniam-se cinco batalhões da Guarda Espanhola, cinco batalhões de Valonas, quatro brigadas de Castela, quatro da Lombardia, quatro da Galiza, quatro de Sabóia, quatro de África e quatro de Milão, além do 34.º Regimento de Cavalaria de Brabante. A estes somavam-se trinta esquadrões de cavalaria comandados pelo conde de Maceda, o corpo de reserva liderado pelo conde de Ricla, a artilharia sob direção do conde de Gazola e o contingente francês comandado pelo príncipe de Beauvau.

A marcha sobre Castelo Branco iniciou-se a 18 de setembro, com as primeiras colunas a avançarem de Penamacor para Pedrogão e Idanha-a-Nova. No dia 19, a artilharia seguiu para São Miguel d’Acha, enquanto o corpo francês se deslocava para Proença; no dia 20, parte das forças alcançou Alcains e a artilharia chegou aos Escalos de Cima. No dia 21, a coluna principal, acompanhada pela cavalaria e pela reserva, entrou em Castelo Branco, completando um avanço de cerca de oito léguas – aproximadamente quarenta quilómetros – em cinco dias. As forças francesas só concluíram a marcha nos dias 22 e 23, instalando-se também na vila.

Os acontecimentos da ocupação de Castelo Branco chegaram até nós com grande detalhe graças ao relato escrito, a 10 de dezembro de 1766, por Frei Filipe Gomes de Santiago, vigário da Igreja de São Miguel. Testemunha ocular dos eventos, o vigário deixou uma descrição minuciosa da entrada, ocupação e retirada do exército espanhol, que se tornaria uma das principais fontes históricas sobre o episódio. Segundo as suas palavras:

“Em 18 de setembro de 1762, pelas duas horas da tarde, entraram nesta vila os primeiros castelhanos; e logo vieram entrando três regimentos de cavalaria e infantaria, que se abarracaram na Devesa desta mesma vila e nos chãos detrás desta Igreja de S. Miguel. E, dali a dois dias, entrou todo o exército (que se julgou seria de 40.000 homens, pouco mais ou menos), foi passando pela Devesa e saindo para a Pipa, Granja e para cima, para a Líria, onde estaria 15 dias, pouco mais ou menos…”

A descrição do vigário confirma a dimensão impressionante da força invasora e a disciplina com que o avanço foi conduzido. Na tarde de 18 de setembro, a chegada das primeiras colunas — três regimentos de cavalaria e infantaria — gerou apreensão entre os habitantes, que viam as suas ruas e campos ocupados por homens armados. Nos dias seguintes, as colunas sucessivas completaram a ocupação, instalando-se em vários pontos estratégicos ao redor da vila.

Castelo Branco rapidamente se transformou no quartel-general da campanha. Igrejas, conventos e casas senhoriais foram convertidos em hospitais, armazéns e alojamentos militares. Durante cerca de seis semanas, a vila tornou-se o coração logístico da invasão, com a redistribuição de víveres e munições e o planeamento de novas ofensivas rumo ao Tejo e a Abrantes. Contudo, a presença das tropas, embora disciplinada nos primeiros dias, trouxe inevitavelmente pilhagens, abusos e um profundo desgaste à população local.

Apesar da posição estratégica alcançada, os planos de Aranda para avançar sobre Abrantes e, eventualmente, sobre Lisboa, não se concretizaram. A resistência popular, a reorganização das forças luso-britânicas, os problemas logísticos crescentes, a falta de víveres — sobretudo vinho, essencial para as tropas — e as condições meteorológicas adversas enfraqueceram progressivamente o exército invasor.

No contexto da Guerra dos Sete Anos, durante a invasão hispano-francesa de 1762, a vila de Castelo Branco foi palco de um episódio trágico que ilustra a dureza da ocupação inimiga. Entre os habitantes que sofreram com a presença das tropas invasoras destacou-se António Lopes Carapetoso, acusado pelos espanhóis de espionagem a favor das forças portuguesas e britânicas, sendo por isso condenado à morte. Na madrugada cinzenta de 25 de outubro de 1762, na Devesa da vila, Carapetoso enfrentou a forca com dignidade, transformando a sua execução num ato de resistência silenciosa.

No final de outubro de 1762, a retirada espanhola tornou-se inevitável. O abandono de Castelo Branco deixou a vila devastada física e moralmente, mas também a transformou num símbolo da resiliência e capacidade de resistência da região.

Este episódio, documentado em relatórios militares, correspondência de oficiais e no testemunho precioso de Frei Filipe Gomes de Santiago, demonstra a importância estratégica de Castelo Branco como base de operações e revela a complexidade de coordenar um exército multinacional em território hostil. Embora a invasão de 1762 não tenha alcançado os objetivos pretendidos, deixou um legado profundo na memória militar e histórica da Beira Interior, simbolizando tanto as ambições hispano-francesas como a firmeza da resistência portuguesa durante a Guerra dos Sete Anos.

 

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